Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 01/11/2018
Durante a colonização do Brasil, muitos africanos foram trazidos por colonizadores portugueses como forma de mão de obra escrava. Por conseguinte, esses grupos trouxeram a sua cultura, como turbantes, dreadlocks e rituais tradicionais. Decerto, esses símbolos culturais que, por um lado compõem o ideal de nação heterogênea, também carregam valores simbólicos de resistência e resiliência. Desse modo, a indústria, ao se apropriar desses elementos, ressignifica-os, o que justifica o debate desse assunto no Brasil.
É necessário analisar, antes de tudo, as mazelas da apropriação cultural. Efetivamente, esse fenômeno acontece quando um grupo historicamente hostilizado tem sua cultura reprimida. Com isso, ao visar a estética e o lucro, o grupo responsável pela marginalização ressignifica tais elementos culturais antes condenados. Dessa maneira, a essência simbólica é perdida e o elemento se torna apenas objeto de consumo. Como consequência, além de perder o papel reflexivo, quem o produziu originalmente é denegrido. Prova disso é o depoimento da colunista da Carta Capital, Djamila Ribeiro, que diz que quando ela usa turbante, as pessoas a discriminam, mas uma pessoa branca que usa o mesmo adereço é vista como moderna.
Cabe destacar, dessa forma, o papel do capitalismo na apropriação cultural. Certamente, símbolos da população negra ganharam destaque em editoriais de moda – como a marca brasileira Farm que recebeu críticas ao publicar modelos brancas com turbantes. Devido a isso, há uma produção em massa desses acessórios, o que aumenta o uso motivado apenas por estética. De acordo com a professora da Universidade da Integração Lusofonia Afro-Brasileira, Marina Mello, as indústrias têm investido em uma ideia de étnico descontextualizada quando se trata da produção de tubantes e outros acessórios.
Fica evidente, portanto, que há um apagamento histórico das contribuições negras ao buscar lucro com elementos dessas culturas. Logo, é imprescindível que as escolas públicas e particulares usufruam da lei de 2003 que torna obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira. Para isso, essas instituições devem promover palestras e debates semestrais para pais e alunos sobre o assunto. Esse evento tem como objetivo fomentar o significado de símbolos e elementos dessa matriz. Assim, os jovens e seus responsáveis terão conhecimento suficiente para optar ou não por certos elementos industriais e, por fim, a memória da resistência negra será preservada.