Discussão acerca da apropriação cultural

Enviada em 02/03/2019

Consoante ao pensamento do filósofo alemão Georg Hegel, o conceito de cultura está diretamente relacionado à relação entre o homem e os elementos que compõem sua existência, dentre eles o trabalho, a religião, a arte, a ciência e a política. Quando se discute sobre apropriação cultural é preciso compreender que o termo não se refere simplesmente ao uso de elementos típicos de uma cultura por um pessoas pertencentes a um grupo cultural diferente. A problemática reside na crítica a um fenômeno estrutural e sistêmico que promove o processo de aculturação. Neste sentido, é fundamental que se discuta sobre os fatores corroborantes a essa situação.

Numa primeira instância, observa-se a importância de analisar o problema sob um viés histórico. Entendida como a fusão de elementos pertencentes a duas ou mais culturas, a aculturação esteve bastante presente na formação do povo brasileiro. A catequização dos índios através dos jesuítas e a escravização dos negros provocou não só a abdicação de crenças tradicionais, mas também a perda da identidade de ambas as culturas. A interpenetração dos costumes de povos distintos é fomentada por um histórico marcado pela hegemonia, colonialismo e genocídios. Assim, a reação indígena e africana à dominação portuguesa se concebe como uma forma de resistência.

Outrossim, é importante ressaltar que a apropriação cultural não pode ser problematizada sob o ponto de vista particular e individual já que as consequências desse processo ocorrem a nível coletivo. A adoção de elementos, símbolos e costumes de um povo que não pertencem à cultura dominante favorece o processo de exclusão ao reforçar a exotização e segregamento desses elementos. No contexto capitalista, a apropriação assume valor lucrativo com a imposição da cultura europeia e norte-americana e a invisibilização das demais. Observa-se, portanto, que a apropriação cultural não é uma crítica ao indivíduo em particular, mas à estrutura midiática e capitalista que silencia e desvaloriza as minorias.

Destarte, torna-se imprescindível a adoção de políticas mediadoras a fim de contornar essa realidade. A intervenção do Estado em prol do pleno reconhecimento da diversidade cultural se torna concebível a partir inclusão do tema na matriz curricular do ensino médio. Ademais, é imprescindível que a Organização das Nações Unidas (ONU) promova seminários e encontros entre pessoas de diferentes etnias a fim de ampliar a compreensão e o respeito entre culturas diferentes. Somado à isto, cabe ao Ministério da Educação propiciar a abordagem do tema nas provas de vestibulares com o objetivo de conscientizar os jovens sobre o assunto e fomentar debates construtivos.