Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 03/10/2019
No momento em que o Brasil tornara-se colônia de Portugal, Pero Vaz de Caminha, escrivão e autor quinhentista, enviara uma carta a Dom Manuel sobre o primeiro contato e mistura de duas culturas díspares: a portuguesa e a dos nativos. Conquanto, hodiernamente, com o advento do capitalismo, a cultura, instrumento abarcativo, passou a ser mercadoria, sendo seus donos de origem negligenciados, seja pelo movimento neoliberal que arrefece valores históricos, seja pela falta de representantes realmente pertencentes à cultura, na arena midiática. Assim, nota-se que o quadro desabonador da apropriação cultural é um problema estrutural e merece um olhar mais amplo.
Primeiramente, é imperioso destacar que as empresas são as principais responsáveis por enaltecer símbolos de grupos subjugados - como negros e índios - para que esses tornem-se mercadorias, ao passo que agem contendo avanços democráticos, onde há a invisibilização social dos donos originários, o que conduz ao alijamento do valor simbólico dos itens culturais. Nessa perspectiva, como assevera o sociólogo Karl Marx, a economia é a infraestrutura da sociedade e os meios produção determinam as relações. Assim, as empresas – cegas pelo capitalismo deletério – fomentam um sistema que desvaloriza a luta desses povos no âmbito social, retirando-os direitos que deveriam ser narrativa por excelência.
Sob outro ângulo, a divulgação midiática dos artigos culturais, na maioria das vezes, por pessoas brancas é mais um problema a não findar. Isso ocorre devido ao passado criminoso brasileiro de valorizar as feições, a cultura e a cor branca como as mais belas, sendo um exemplo decorrente dessa conjuntura, a campanha da marca “Personal”, ao se apropriar do slogan americano “Black is beautiful”, com a imagem da atriz branca, Marina Ruy Barbosa. Tal posicionamento anacrônico é, portanto, uma violência e corrobora a ressignificação de símbolos, uma vez que, as pessoas, ao verem os objetos, como acessórios, em lugares de destaques, em pessoas de pele clara, apenas, tendem a desconsiderarem a histórica luta negra por igualdade, além de colocarem às sombras a importância da sua representatividade.
Torna-se evidente, portanto, a necessidade de medidas as quais atenuem essa problemática. Para tanto, o poder Executivo, na figura do Ministério da Comunicação, deve impor que as mídias de longo alcance, como programas de televisão, ao apresentarem símbolos culturais de grupos subjugados para a venda, além de apenas brancos, também contratem pessoas cujo pertençam à cultura, para que não haja desigualdade ou exclusão do histórico de parcelas expressivas da população que ainda reivindicam o direito democrático à diferença. Dessa forma, talvez, todos serão visíveis e respeitados.