Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 10/08/2020
A obra de Castro Alves, famoso poeta brasileiro do século XIX, demonstra a luta de grupos de negros que, por meio de sua cultura tradicional e miscigenada, resistiam à repressão e desigualdade no Brasil colonial. Trazendo essa ideia ao presente, a relação entre a cultura de certos grupos brasileiros e seus adeptos ainda possui um complexo funcionamento intrinsecamente ligado ao preconceito e exclusão de tais grupos. Nesse sentido, a “reversão” da situação vista no Brasil colonial e a adoção de culturas antes reprimidas por grupos favorecidos leva à apropriação cultural. Tal fenômeno vai contra ao combate histórico desenvolvido por diversas culturas e grupos - como os negros - contra a desigualdade do país, dificultando o emponderamento dessas massas.
A priori, segundo a personalidade Vilma Santos, em seu livro “Cultura Negra como Expressão de Luta e Vida”, a comunidade negra utilizou dos costumes musicais, sincretismo religioso e ações do cotidiano antes praticadas por seus antepassados como forma de preservar seus laços quebrados pelo colonialismo, combatendo-o. Sob tal óptica, tomando como base o grupo negro e o livro de Vilma, a prática de uma cultura militante por seus indivíduos reprimidos faz com que a simbologia de luta adquirida por ela seja reforçada. Portanto, é evidente a importância da resistência realizada pelos grupos reprimidos por meio de sua própria cultura.
No entanto, a utilização indevida dos símbolos de luta dessas culturas pode prejudicar a resistência dos grupos reprimidos, o que leva ao problema da apropriação cultural. Acerca disso, segundo Eliane Oliveira, mestre em ciências sociais e professora, a adesão indiscriminada e inconsciente de brancos ao uso de turbantes, à religião de candomblé e à outras práticas africanas trazidas ao Brasil no período colonial é responsável por retirar o sentido de emponderamento e luta que tais costumes possuem para o grupo negro. Dessa forma, como dito por Eliane em um breve excerto no grupo e site “Blogueiras Negras”, deve-se haver conscientização por parte dos grupos favorecidos sobre a simbologia de resistência de certos costumes, para que os usem com respeito e favorecendo o movimento de luta.
Com base nos fatos discorridos, percebe-se que a utilização de costumes de grupos reprimidos por outros indivíduos deve ser consciente para que não prejudique a luta desses grupos. Para tanto, a Agência Nacional de Telecomunicações deve, por meio de propagandas nas emissoras mais renomadas da TV aberta, mostrar a luta dos grupos reprimidos - como indígenas e negros - e a simbologia de suas culturas nessa luta. Essas propagandas precisam ser ministradas por pessoas de diversas etnias, para representar a busca por igualdade e respeito, e devem mostrar os principais costumes de resistência de cada grupos. Assim, a apropriação inconsciente dessas culturas mudará.