Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 05/07/2021
O cantor Lenine, em sua canção “Jack Soul Brasileiro”, exalta a notável concentração de ciclos culturais simbióticos no Brasil, que supostamente deveriam massificar a liberdade de expressão de uma miríade de tradições. Contudo, o contexto brasileiro ainda torna a deturpar tal preceito quando se observa a persistência da apropriação cultural na sociedade hodierna, uma ameaça ao caráter inclusivo da identidade nacional. Por isso, é imperativo compreender sua ocorrência como resultado dos males da negligência educacional e jurídica.
Destarte, convém ressaltar que, diante da ascendente banalização de culturas minoritárias, a pífia cobertura escolar sobre o entrave omite a importância da soberania multicultural. Conforme o filósofo Sócrates, o processo de aprendizagem deve provocar a reflexão discente quanto a opiniões prefixadas, de modo a reverter ultrajes no pensamento do aluno. Nesse sentido, a partir da evidente tecnicização da aprendizagem nacional, o corpo educador abre mão do debate pautado em inúmeras pré-concepções etnocentristas, o que, ao mesmo tempo, afronta as ideias do cânone da filosofia grega e perpetua a coisificação do patrimônio de múltiplas doutrinas. Assim, tal conjuntura precede a indiferença popular acerca da utilização de elementos étnicos para fins humorísticos ou satíricos.
Ademais, é prudente destacar as proporções atingidas por essa desconstrução de valores em festividades - no carnaval, por exemplo. Sob esse viés, é inaceitável a contribuição da impunidade em casos de ironização do significado de artefatos indígenas nessas datas à perpetuação desta no Brasil. Essa inoperância, segundo a sociologia do pensador Émile Durkheim, configura derivações patológicas dos fatos sociais, pois a fuga da normas penais pelo Sistema Judiciário - classificado, pelo Banco Mundial, como o 30º mais lento entre 133 países -, representa uma afronta à normalidade esperada pela população nesse aspecto ao passo que a conduz à anomia - ou seja, desordem generalizada. Logo, a atenuação da funcionalidade constitucional universaliza a conjectura de libertinagem, o que impulsiona a inferiorização desses importantes componentes socioculturais do país a meros adornos cotidianos.
Portanto, o Estado deve atuar no combate à apropriação cultural. Dessa forma, urge que o Ministério da Educação e da Cultura (MEC) crie, por meio da aprovação de emendas facilitadoras de investimentos em tal intervenção, palestras em instituições educadoras nacionais acerca da temática, com destaque ao Norte e Nordeste, detentores de medíocres níveis de escolaridade, a fim de relacionar a nocividade de sua reverberação à negligência educacional. Somente assim a consciência coletiva conseguirá abolir as fronteiras entre o discurso musical de Lenine e o panorama vigente na nação.