Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 28/10/2023
Em “Otelo”, obra literária do dramaturgo inglês William Shakespeare, é narrada a história de Otelo, general mouro a serviço do reino de Veneza. Na trama, Iago - alferes veneziano, afirma que as relações humanas, em sua gênese, são dotadas de ações prejudiciais à harmonia coletiva, mecanismo utilizado pelo autor para exaltar o teor retrógrado da sociedade. Paralelamente, a apropriação cultural também é um retrocesso para o cenário brasileiro. Nesse ínterim, entende-se a subestimação do potencial do indivíduo e a banalização de culturas distintas como causas do obstáculo.
De início, é lítico pontuar o papel da apropriação cultural como agente que desqualifica a capacidade do sujeito. Isso porque, embora a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), reconheça a pluralidade de culturas essencial à constituição da sociedade, a maneira como elementos culturais são usurpados por grupos de etnias distintas acaba por minimizar a relevância histórica-social que esses povos carregam consigo. Nesse sentido, o ato de utilizar certos hábitos, práticas ou costumes da cultura de outrem para benefício convencional configura uma violência ao intrínseco humano. À luz dessa perspectiva, de acordo com Confúcio, pensador chinês, a cultura está acima da diferença da condição social. Desse modo, é revoltante que identidades brasileiras tenham suas culturas desprezadas e desrespeitadas.
Outrossim, é válido ressaltar que a banalização reforça a continuidade de estereotipos na nação. Sob essa ótica, segundo Paulo Freire, educador brasileiro, a inclusão apenas existe quando aprende-se a lidar com o diferente. Nessa narrativa, ao limitar a complexidade das culturas a padrões de comportamento, outros problemas sociais do país são explorados , dado que entraves como: racismo, intolerância religiosa e étnica são velados visto que a apropriação cultural recusa o princípio de que os elementos que constituem uma dada cultura estão atrelados a significados que extrapolam as limitações estéticas. Dessa maneira, é inadmissível que as restrições impostas aos povos e culturas continuem a desqualificar o conjunto de bens imateriais humanos.