É imprescindível garantir a igualdade de gênero no século XXI

Enviada em 20/06/2020

Escrito em 1949, o livro “O segundo sexo” de Simone de Beauvoir retrata que a consolidação de um mundo masculinizado tornou o ser feminino uma particularidade negativa, identificado como “o outro”. Dentro dessa lógica, no cenário brasileiro do século XXI ainda é possível visualizar marcas desse legado na sociedade, tendo em vista a tamanha desproporcionalidade existente entre as formas de tratamento dadas a ambos os sexos. Nesse sentido, o grave problema persiste intrínseco à realidade por fatores como a permanência de raízes patriarcais e a significativa diferença salarial no espaço de trabalho.

Em primeiro plano, Gilberto Freyre em sua obra Casa Grande e Senzala analisa o patriarcado como uma herança do período colonial, no qual o senhor de engenho detinha o poder no âmbito familiar, e as mulheres assumiam o papel secundário de conservação do lar. No contexto atual, infelizmente, ainda é possível observar traços desse sistema estruturados no país. A exemplo disso, o público feminino desde o período infantil é condicionado, muitas vezes, a seguir determinadas condutas, como as voltadas para afazeres domésticos, que posteriormente refletirão na escolha da carreira profissional e demais outras atividades sociais. Logo, a restrição ao ciclo de uma mentalidade pretérita e inconcebível, contribui para a dificuldade no estabelecimento da condição de igualdade.

Outrossim, mas não menos importante, a grande disparidade salarial vigente entre ambos os gêneros também potencializa o impasse. Segundo dados do portal G1, em todos os cargos e áreas de atuação as profissionais femininas chegam a ganhar até 53% menos do que os colegas do sexo oposto. Nessa perspectiva, mesmo com qualificação e produtividade condizentes às atividades laborais, muitas empresas apoiam-se no fator maternidade como principal justificativa às diferenças de remuneração, cujo pretexto recai sobre a necessidade dos cuidados e tempo exigidos pelo papel materno. Assim, o viés defendido no âmbito empresarial constitui um entrave à equidade salarial, o que além de impactos financeiros, viabiliza a permanência de um cenário de contrastes.

Portanto, medidas são necessárias para alterar o cenário de desigualdade no Brasil. A fim de promover a plena paridade remunerativa entre homens e mulheres, é dever do Poder Executivo, em parceria com a Secretaria do Trabalho, a atuação mais rígida e severa na aplicação da lei em vigor acerca do tema. Isso pode ser feito por meio de uma maior frequência de fiscalizações no ambiente de trabalho, buscando ampliação de alcance e a certificação de empresas que pagam por igual nos casos de desempenho de mesma função. Somente assim, o termo “o outro” referido por Simone tornar-se-á alusão e a nação caminhará rumo a um futuro mais justo.