É imprescindível o combate à cultura do estupro
Enviada em 07/09/2019
Na música “Mulheres de Atenas”, Chico Buarque se utiliza da Grécia Antiga para traçar um paralelo sobre a sociedade patriarcal, onde tanto na Antiguidade, quanto na Pós-modernidade não há igualdade de gênero, consequentemente, apresenta-se profundamente intrincado à cultura uma sistemática de perseguição e violência sexual ao feminino. Dessa forma, a objetificação do corpo alheio é um dos fundamentos desse quadro. Ademais, o descaso do Estado é auxilia no silêncio advindo dos lesionados.
Em primeiro plano, segundo a filósofa Simone de Beauvoir, “o homem é definido como ser humano e a mulher como fêmea”, uma vez que, em uma sociedade estruturalmente machista, se conforma uma narrativa de apropriação, do ser feminino, sua condição como pessoa. Desse modo, usurpada de sua individualidade, lhe é atribuída uma ótica minimizante, na qual sua função pauta-se, exclusivamente, na satisfação do olhar masculino. Dessa maneira, qualquer característica, comportamento ou elemento físico servem para justificar até os crimes mais hediondos e estabelecer um viés de culpabilização da vítima. Logo, a história da personagem de Machado de Assis se repete, na qual Capitu, por demasiadas vezes, é tida como uma mulher perversa, infiel e manipuladora, quando, na verdade, o narrador-protagonista era um ciumento patológico, que via nela espaço para depositar sua paranoias.
Paralelamente, mesmo que seja de entendimento geral a gravidade da violência sexual, a sistematização de silenciamento e descreditamento de suas vítimas ainda é uma constante. Desse jeito, conforme o Atlas da Violência de 2018, nos Estados Unidos, apenas 15% dos estupros são comunicados à polícia, se a taxa brasileira for próxima a isso, cerca de trezentos e cinquenta mil estupros anuais não são notificados. Assim sendo, o agredido, não raramente, acaba sofrendo uma série de outras violências pós crime, como o atendente que não lhe dá o devido tratamento ao colher as informações ou as delegacias que não possuem recursos para protegê-lo posteriormente. Por isso, o poder público com suas inúmeras lacunas se mostra um fomentador de uma cultura, que metodicamente rouba a voz e a vida de meninas e mulheres diariamente.
Portanto, o Governo Federal precisa estabelecer uma política de combate à violência de gênero, objetivando minorar os impactos de uma opressão estruturalizada. Isto Posto, com o auxílio da iniciativa privada, deve criar uma fundo monetário, através do qual serão concebidos cursos, sobre violência contra a mulher e diversidade de gênero, aos corpos docentes das escolas e às corporações policias, a fim de instigar sensibilização dessas temáticas nesses espaços, além de utilizar para melhorar os recursos dos policias na proteção das vítimas. Assim, é possível quebrar essa sistemática nociva.