É imprescindível o combate à cultura do estupro

Enviada em 07/10/2019

O filósofo contemporâneo Pierre Bourdieu dedicou-se a investigar a dimensão da dominação masculina na sociedade,isto é,as estruturas de pensamento que estão consolidadas e,por isso,tornam o androcentrismo inquestionável.Dessa forma,a persistência da cultura do estupro no Brasil enquadra-se na discussão do filósofo,uma vez que enaltece a figura masculina em detrimento da feminina,sendo uma mazela relacionada à sociedade patriarcal e à mídia,reprodutora desse infeliz cenário.

É válido ressaltar a princípio,a análise da formação brasileira sob o ponto de vista do sociólogo Gilberto Freyre.Nesse sentido,para ele,desde o período colonial existia no país um padrão cultural a ser seguido,baseado no senhor de engenho:máxima representação do patriarcalismo.Desse modo,a sociedade patriarcal de Freyre-ainda presente na contemporaneidade-banaliza o androcentrismo defendido por Bourdieu,ou seja,ao supervalorizar o homem,a imagem feminina é silenciada e relativizada,o que normaliza a violência contra a mulher e representa a cultura do estupro.Logo,tal cultura é representada na prática não apenas pelo abuso sexual sofrido pelas mulheres,mas também por meio de formas simbólicas,como a inferiorização feminina no ambiente de trabalho,marcada,muitas vezes,pela diferenciação salarial entre homens e mulheres pela mesma vaga.

Em consonância a isso,a mídia,sobretudo a televisiva,perpetua a cultura do estupro ao objetificar o corpo feminino e difundir apenas o esteriótipo sensual da mulher.Nesse viés,o Programa Silvio Santos exibe o quadro ‘‘Concurso Miss Brasil’’ em que crianças desfilam de maiô e são julgadas de acordo com sua aparência física.Diante disso,como existe público para o programa,além do incentivo dos pais das participantes,é evidente que,desde a infância,a imagem feminina é menosprezada e relegada,de forma normalizada,à função de agradar e satisfazer os homens-característica marcante do patriarcalismo.Dessa maneira,é evidente que esse lamentável panorama colabora para perpetuar a cultura do estupro,pois,ao valorizar a aparência das mulheres mais do que todos os outros aspectos que as definem enquanto indivíduos,legitima a dominação e superioridade masculina.

Portanto,cabe ao Ministério da Educação a criação de campanhas educativas,nas escolas públicas e nas privadas,que debatam a importância de desconstruir a cultura do estupro.Isso deve ser feito por meio de palestras abertas à comunidade com mulheres representantes de ONGS feministas que debatam a sociedade patriarcal e a objetificação do corpo feminino.Essa ação teria a finalidade de transformar as estruturas de pensamentos consolidados culturalmente,e,assim,valorizar devidamente a mulher,seja no trabalho ou nos programas de auditório.Só assim a dominação dita por Bordieu dará lugar a harmonia social entre homens e mulheres,o que iniciará o combate à cultura do estupro.