É imprescindível o combate à cultura do estupro
Enviada em 01/05/2020
Na novela “Totalmente Demais”, é retratada a moça Elisa que foge constantemente do assédio de seu padrasto e ao relatar a moléstia à sua mãe, esta acusa, aquela, da causa do ocorrido. Nos dias atuais, o Brasil reproduz o enredo, com visões machistas que atenuam a imagem do agressor e a vítima vira a réu social do abuso pelo modo “inconvencional” de ser, o que mostra ser imprescindível o combate à cultura do estupro. Para isso, convém as problemáticas e a possível solução desse quadro.
Primeiramente, a objetificação do corpo feminino está se tornando um entrave. Isso ocorre muito na propaganda da empresa Itaipava, a “vai verão”, que idealiza o corpo feminino e incita o assédio. Verifica-se daí, como o estupro está implícito no país, seja no rapaz que passa a mão nas partes íntimas da mulher sem à sua permissão, os “amigos” embebedando as meninas para usá-las no final da festa, as cantadas de baixo calão feitas às moças na rua e uma interpretação deletéria de que o “não” feminino é na realidade um “sim” para o abuso. Logo, evidencia-se como uma fração das pessoas vêm sendo educada de modo errôneo, isto é, os meninos, principalmente, são orientados pelos pais a serem os “garanhões” da família e não a respeitar as meninas, como na propagando da Itaipava.
Ademais, a culpabilização da vítima impulsiona o problema. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), estima-se que 90% dos casos de estupro não são notificadas à polícia. Assim, pessoas sofredoras desse mal, preferem o silêncio porque, na maioria das vezes, o que surge é uma família pronta para julga-las de qual roupa estavam na hora do abuso, o quanto de bebida elas tomaram para “merecerem” o ato libidinoso e até que horas elas ficaram na rua, enquanto o criminoso, às vezes, sai ileso da situação, como no caso do Ex-BBB Prior, que está sendo acusado de três estupros e a única preocupação de alguns indivíduos é a de criticar a razão de a denúncia ter sido feita após ele se tornar famoso. Nisso, é inaceitável que isso se perpetue, pois além de dissolver o combate ao estupro, fomenta o medo de procurar ajuda nas mulheres e, inclusive, motiva o suicídio.
Destarte, é mister que o Ministério da Saúde, em sinergia com as secretarias municipais e estaduais da saúde, elaborem projetos para combater os abusos sexuais, com propagandas em rádios e tevês para conscientizar sobre a importância de respeita o “não” das mulheres, aplicativos para moças denunciarem casos de estupro, ressaltar à população a não fazer julgamentos e disponibilizar apoio psicológico a vítimas em postos de saúde. Tal iniciativa deve ainda buscar ajuda de escolas e ONGs para lapidar nos alunos respeito às meninas, mostrar que sexo não consensual é crime e que isso deve ser incentivado pelos pais com cartilhas, slogans e cartazes. Dessa forma, amenizar-se-á o machismo social e evitar que casos como da Elisa continuem a ocorrer na sociedade.