É imprescindível o combate à cultura do estupro
Enviada em 17/08/2020
No século XIX, o Romantismo transmitia, pela representação de personagens literárias, uma conduta de submissão feminina que compactuava com os valores morais da época. Nos dias atuais,é possível afirmar que há no Brasil uma cultura do estupro, haja vista, o registro oficial de 50 mil casos anuais e de outros tantos, certamente, subnotificados. Tal cenário está em consonância com a objetificação da mulher e a relativização da violência sexual sofrida pela mesma. Sendo o fenômeno de origem cultural e não natural, sua desconstrução é igualmente possível que comprova um modelo arcaico enraizado na sociedade.
Primeiramente, uma das causas dos assédios é a visão machista sobre a conduta feminina. Mesmo que o Feminismo tenha assegurado maior autonomia política e social à mulher, o patriarcalismo ainda a subjuga pela sua vestimenta, direito de ir e vir e empoderamento. Desse modo, os ideias conservadores se sobrepõem à realidade. Em 2016, a revista Veja entrevistou a esposa do vice-presidente Michel Temer, em uma reportagem intitulada “bela, recatada e do lar”. Tal chamada unifica o papel da mulher, pois o machismo justifica que aquelas que fogem a esse padrão ao usarem roupas curtas e saírem desacompanhadas estão propícias ao abuso.
Além disso, há hoje a banalização do assédio e as redes sociais tornaram-se uma ferramenta para tentar combatê-lo. Nas ruas, festas, trabalho e, até dentro da própria casa, as cantadas, puxadas no cabelo e as tentativas de reprimir a vítima à violência sexual são ações que se naturalizaram, já que acontecem cotidianamente na vida de muitas mulheres. Para engajar jovens e adultas contra a sensação de impunidade, campanhas virtuais como “Meu Primeiro Assédio”, “Me avisa quando chegar” e “Vamos juntas?” percorrem as redes sociais a fim de denunciar as opressões vividas, trocar experiências e atrair atenção da mídia e das pessoas para conterem esse mal. Outrossim, a relativização desse fenômeno é percebida quando a mídia e a sociedade lançam sobre os ombros da própria vítima a responsabilidade pela violência sofrida. Além disso, as ameaças proferidas pelo agressor fomentam a subnotificação e a aparente inexistência desse tipo de crime no país.
Dessa maneira, infere-se que a cultura do estupro é uma realidade cruel no Brasil. Nesse sentido, a mudança de pensamento é a principal via preventiva a ser trilhada,é imperioso que escolas realizem debates interdisciplinares que estimulem a mudança de mentalidade e comportamento entre os jovens. Somem-se a isso a veiculação, em mídias diversas, de campanhas publicitárias que exponham a assustadora realidade e desconstruam a objetificação da mulher e a relativização da violência sexual. Somente assim, a cultura do estupro será progressivamente desconstruída.