É imprescindível o combate à cultura do estupro
Enviada em 02/10/2020
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. Analogamente a pedra citada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade pode ser comparada com o impasse do combate à cultura do estupro no Brasil. Nesse sentido, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, que emerge devido a uma justiça falha e ao machismo.
A priori, a justiça nem sempre é eficaz ,agindo sem equidade e empatia em muitos casos de violência sexual. A exemplo, Mariana Ferrer, jovem de 21 anos, foi dopada no clube Café de La Musique, em Florianópolis, e estuprada pelo Empresário André Aranha, ela apresentou no boletim de ocorrência vídeo, exame de DNA, roupas com sangue do ato e laudos médicos, entretanto, o abusador foi absolvido por falta de provas, o que é ,redondamente, uma injustiça absurda. Contudo, esse tipo de situação desestimula milhares de mulheres, em condições de abuso, criem coragem para realizar uma denuncia, pois acreditam que somente em casos de muita sorte irão acreditar na palavra delas.
A posteriori,presencia-se o machismo também como um fator para a permanência da problemática. Haja vista , uma menina de dez anos de idade que ficou grávida, depois de ter sido estuprada durante quatro anos pelo tio, em Vitória, no Espírito Santo, não só viu o seu nome ser divulgado na internet pela militante de extrema-direita Sara Winter, como foi alvo de uma manifestação por parte de extremistas religiosos, em frente à maternidade onde estava internada, onde foi apelidada de “assassina”, por manifestar a intenção de abortar. Desse modo, o pensamento machista é cultural e necessita ser combatido, pois quer implantar ideias e valores absurdos de que as mulheres não podem ter domínio sobre o próprio corpo e que a vítima é culpada pelo abuso sofrido e deixar o agressor sair impune do crime.
Em suma, para que essa pedra seja retirada, cabe ao Governo ,em parceria com o Poder Legislativo, elaborar leis mais severas contra estupradores e maiores medidas de proteção e apoio a palavra das vítimas, a fim de que o problema seja erradicado. Além do mais, o Ministério da Saúde deve promover debates sobre educação sexual, prevenção e identificação do abuso sexual ,mediante conversas em postos de saúde locais e palestras em escolas com a finalidade de que mulheres e crianças entendam seus direitos e não fiquem caladas diante de situações de abuso, provocando também a quebra da cultura do estupro em que a sociedade consciente e inconscientemente responsabiliza a vítima pela violência sexual sofrida.