É imprescindível o combate à cultura do estupro

Enviada em 03/11/2020

Simone de Beauvoir disse que a mulher não nasce mulher, mas se torna mulher; ou seja, ela é a síntese de uma construção cultural. Nesse caso, é bastante corriqueiro ver na sociedade a bipolaridade machista que violenta a mulher e a culpa pelo seu comportamento criminoso. Essa é a cultura do estupro, a qual, embora seja pulverizada e naturalizada, jamais deveria ser aceita socialmente, posto que é violenta e deve ser combatida.

Em primeiro lugar, devemos reconhecer que a violência da cultura do estupro foi banalizada, na acepção de Hannah Arendt. Tanto que, na religião, ela está no pecado original (a mulher comeu a maçã proibida); no trabalho, está no assédio denunciado pelo #MeToo; no ônibus ou no metrô, está na vestimenta que estimula a esfregada lascívia. Aliás, o Ministério da Saúde divulgou dados de que é comum o aborto de meninas crianças engravidadas por familiares. Assim, não é possível questionar seriamente que o macho atual mostra sua masculinidade com base na força arbitrária.

Ademais, existem gargalos no combate a essa deplorável cultura. Isso acontece porque os agressores são conhecidos (familiares, namorados ou pessoas de convívio) e, ao mesmo tempo, são estereotipados como de boa índole. Nesse caso, a psicologia entende que as mulheres têm a tendência de não prestar queixa, assim como de abafar os acontecimentos, haja vista a violência em eco que as machucam a cada retorno da lembrança. Por isso, conforme dados anuais do Fórum de Segurança Pública, são denunciados apenas 50 mil casos, quando se estimam ser mais de 500 mil.

Portanto, apesar de a situação parecer tomar contornos de assuntos de somenos importância, o fato é que o tema da cultura do estupro precisa ser enfrentado imediatamente. Para tanto, é preciso do que Ministério da Educação faça a contratação de psicólogos e de assistentes sociais, que poderão atuar nas escolas primárias, seja na conscientização infantil sobre a gravidade do assunto, seja na identificação de casos criminosos e na sua posterior denúncia aos órgãos competentes. Isso possibilitará também uma sólida mudança cultural, empoderando mulheres e coibindo criminosos.