Eleições 2018: o papel das redes sociais nas discussões políticas
Enviada em 16/10/2020
Em “Ensaio sobre a cegueira”, obra ficcional do escritor José Saramago, observa-se uma epidemia de perda de visão em determinada comunidade. A incapacidade de enxergar pode ser depreendida como um retrato metafórico da conduta social perante os problemas da realidade. É possível relacionar essa “cegueira”, por exemplo, diante de alguns comportamentos nas redes sociais que permearam as discussões políticas nas eleições de 2018 no Brasil. Por esse viés, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que envolvem essa questão no país.
Inicialmente, analisa-se que o Poder Público se apresenta omisso ao permitir perfis falsos nas redes sociais. Isso porque há uma deficiência na legislação, uma vez que para a criação de uma conta em uma rede no Brasil não é necessário uma identificação efetiva, o que dar margem para a criação dos chamados “robôs”, perfis automatizados que engajam um determinado assunto para manipular a percepção do público. Segundo uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas em 2014 os “robôs” geraram 10% do debate político. Sendo assim, vê-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado pelo governo, o que demonstra a ruptura dos preceitos estabelecidos na Constituição Federal de 1988.
Outrossim, constata-se que aceitar as notícias falsas é naturalizar o mal. Prova disso foi, durante as eleições de 2018, o compartilhamento em massa de informações inverídicas, por meio de grupos no Whatsapp, com o objetivo de promover ou difamar determinados candidatos. Segundo o Instituto Datafolha 46% dos eleitores disseram se informar por esse aplicativo. Todavia, parte da sociedade tem apresentado certa apatia diante dessa problemática, pois grande parte desse conteúdo foi encaminhado por pessoas comuns que não verificaram a veracidade do conteúdo. A banalização dessa atitude pode ser elucidada com base nas reflexões filosóficas de Hannah Arendt já que, segundo ela, a massificação cultural faz com que as pessoas aceitem quadros negativos sem questionar.
Convém, portanto, ressaltar que, os problemas referentes à rede social que permearam as eleições de 2018 devem ser superados. Para isso, é necessário que a população exija do Estado, mediante debates em audiências públicas, a criação de uma lei que possa regulamentar e fiscalizar a criação de perfis, determinando uma quantidade máxima por pessoa, com o objetivo de diminuir a criação de perfis falsos. Ademais deve haver sensibilização da sociedade, através de campanhas midiáticas promovidas pelo Ministério das Comunicações, sobre a importância de verificar a integridade das mensagens que recebe antes de partilhar com outras pessoas. Desse modo, a “cegueira” poderia ficar restrita à obra de José Saramago.