ENEM 2002 - O direito de votar

Enviada em 27/10/2020

A democracia nasce como uma alternativa para organizar as condições sociais que se manifestavam na formação das antigas cidades gregas e se referia à atuação popular do poder. Sendo assim, o voto é um aparato democrático que garante a participação política da sociedade, ainda que ao longo de sua história grupos sociais tiveram que lutar para serem reconhecidos como uma parte do povo, como o caso das mulheres que, no Brasil, puderam votar somente a partir de 1934. Porém criar e conquistar o direito ao voto é suficiente para assegurar que as mudanças necessárias para os cidadãos irão ocorrer?

Primeiramente, a atuação de povo foi por muito tempo limitado a grupos hegemônicos: homens, proprietários, livres, assim por diante. Dessa forma, a atuação do voto no processo democrático representa menos a relação do povo com o processo político do que sua ideia, do que sua imagem.  Assim, segundo Marilena Chauí em Uma Breve História da Democracia, os que detém a posição de eleitores são reduzidos a votantes que não reconhecem a origem do poder político, a própria sociedade.

Em seguida, não reconhecer o poder social significa alienar-se do voto e desorganizar-se politicamente, já que o movimento natural da história da sociedade atual é munido pela ideologia de uma sociedade burguesa industrial, cujos moldes se deram na Inglaterra da década de 1980 com Margaret Thatcher, que busca através da política manter privilégios em detrimento do direito de classes menos favorecidas e as manipular estruturalmente para que se distanciem da consciência de voto. Ao mesmo tempo governantes e candidatos usam do jogo neoliberal para estimularem campanhas e fraudar eleições, através da manipulação de notícias e projetos que desprezam o povo e não significam mudança alguma em favor da sociedade.

Em suma, para que haja mudança através do voto popular, deve haver antes a estimulação da consciência crítica e autônoma do processo político, seja inserida nos processos e instituições educacionais, seja pelo reconhecimento da condição de vida em sua materialidade histórica. Dessa maneira a própria sociedade há de reconhecer seu papel político, podendo reivindicar, em caso de descontentamento, plebiscitos e referendos a fim de atuar com mais vigor, além de poder também fiscalizar com rigor e consciência os projetos e atos políticos subsequentes às eleições. Cabe às instituições políticas e poderes do Estado a função de regularem-se de acordo com a vontade popular e não pôr acima disso interesses corporativos ou privados, assim o povo há de se integrar e lutar por seus direitos acima dos privilégios de alguns na hora de votar.