ENEM 2002 - O direito de votar

Enviada em 20/10/2020

Em 1984, durante o regime militar, ocorreu no Brasil um amplo movimento civil denominado ‘‘Diretas já’’, que reivindicava o voto direto para presidente -direito que havia sido extirpado há alguns anos- e que, apesar de malograr, ao final, contribuiu para o reestabelecimento da democracia no país a partir do ano seguinte e, posteriormente, consolidou o voto universal com a Constituição Federal de 1988 . No entanto, a despeito da conquista árdua e relativamente recente, o voto é frequentemente tratado com descaso e muitos dele se abstém, prejudicando assim, a efetivação das transformações sociais e o exercício pleno da cidadania.

Primordialmente, é relevante abordar acerca do atual panorama político brasileiro. Cerceado por óbices, o país tem como grande expoente a corrupção sistêmica, iniciada sobretudo a partir da república velha com a implantação do coronelismo e do voto de cabresto, culminando assim em um poder executivo e legislativo restrito à elite econômica e que atendia exclusivamente à seus interesses e, não raro, em detrimento da população. Desse modo, embora se tenha conquistado o direito ao voto universal, poucos cidadãos o entendem como mecanismo de transformação social, haja visto que não o associam ao desmantelamento da corrupção sistêmica e à possibilidade concreta de efetivação da cidadania, tratando-o como ineficaz e, por vezes, como um fardo.

Outrossim, é de suma importância salientar sobre da magnitude do voto. Conforme Aristóteles, o exercício da política deveria ser efetivado por todos os indivíduos em virtude de que, somente por meio dela seria possível deliberar acerca dos assuntos que englobam a vida em sociedade e estabelecer o bem comum. Nesse sentido, percebe-se a sua validade na medida em que se observa que, pelo voto, a política é efetivada, demonstrando a vontade da maioria e permitindo o exercício da cidadania, ou seja, coloca o indivíduo como ser participante da sociedade e possibilita, por meio dele, solicitar mudanças.

Diante do exposto, portanto, percebe-se que o direito ao voto é sine qua non para efetivar transformações sociais, sendo imprescindível sua manutenção e mudança de percepção. Para isso, é fundamental que os intelectuais públicos -em razão de seu conhecimento- por meio das redes sociais e outras mídias, elucidem a importância  do voto por intermédio de fatos históricos e reflexões, estimulando-o e conscientizando sobre sua responsabilidade social, de modo a ser executado de maneira crítica, estudando a trajetória e a proposta de cada candidato de forma a atender às demandas sociais com o intuito de, paulatinamente, reverter a corrupção sistêmica bem como descontruir a noção de fardo e ineficiência tida pelo voto. Dessa forma, será possível edificar uma sociedade reflexiva, justa e autônoma, que faça jus aos direitos conquistados após as ‘‘diretas já’.