ENEM 2002 - O direito de votar

Enviada em 21/10/2020

Lya Luft afirmou que a sociedade usa “óculos cor-de-rosa” para se abster da realidade. A metáfora aplica-se ao contexto atual da democracia conquistada no país – já que o Brasil, analogamente, utiliza o acessório para não enxergar meios de, pelo voto, promover as transformações sociais que necessita; então, ações que visem ao reconhecimento da luta pela aquisição desse direito e à valorização de seu poder de mudança carecem de estímulos.

Nesse cenário, ainda que a Constituição Federal de 1988 garanta o regime democrático e o código eleitoral, o número de cidadãos que preferem se omitir frente à política cresce. Ao encontro disso, a cada nova eleição, não só a quantidade de votos “nulos” e “brancos” aumenta, como também a presença de candidatos que fazem sátiras com os escândalos de corrupção e com a capacidade duvidosa de governar de outros e, surpreendentemente, acabam vencedores. Esse descaso faz com que a população esqueça sua luta para alcançar a liberdade de escolha de seus líderes: seja pelo “voto de cabresto”, na República Velha; seja pela opressão e pela censura, na Ditadura Civil Militar, os brasileiros necessitam reconhecer seu processo histórico e, sobretudo, usufruir de forma consciente dos seus direitos.

Além disso, ao abdicar dos instrumentos da democracia, o povo não leva em conta o poderoso vetor de esperança de cada processo eleitoral; presidentes, governadores, prefeitos e vereadores: são eles que irão (ou deveriam) representar os anseios de seus eleitores perante às demandas sociais e às decisões burocráticas. Com isso, cabe atentar ao conselho de José Saramago: se podes olhar, vê; se podes ver, repara”; logo, é preciso que se veja a importância de escolher candidatos que correspondam aos interesses da comunidade e, de forma conjunta, reparar as lacunas que impedem que esse ideal seja unânime no pensamento popular.

Portanto, a fim de conscientizar os cidadãos acerca da evolução dos seus direitos, por meio do diálogo e do aprendizado, a escola deve realizar projetos em que os alunos organizem seminários, palestras e teatros que abordem o processo histórico brasileiro e que questionem o papel da sociedade nas mudanças de cada época; em resposta, é oportuno que o governo invista em campanhas de publicidade e de fiscalização que, pela interação com a população em portais virtuais, almejem motivar o povo a votar, a denunciar e a pesquisar campanhas e personalidades que podem influenciar no desenvolvimento nacional. Desse modo, o Brasil consegue – finalmente- livrar-se dos “óculos cor-de-rosa” e pode enxergar um futuro próspero, em quem a democracia promova a transformação social.