ENEM 2002 - O direito de votar
Enviada em 27/10/2020
Na obra “A Cidade do Sol”, o filósofo italiano Tommaso Campanella disserta acerca de uma sociedade ideal, na qual atinge-se o bem-estar social por intermédio do modelo de Estado perfeito. No entanto, nota-se, no mundo hodierno, o oposto a essa organização harmônica, uma vez que problemas relacionados ao direito de votar e a promoção das transformações sociais no Brasil se apresentam como uma barreira para o alcance da harmonia coletiva proposta por Campanella. Assim, esse cenário antagônico é fruto tanto da má formação socioeducacional, quanto da política clientelista.
Convém ressaltar, a princípio, que os deficits de caráter social e educacional derivam da baixa atuação dos setores governamentais, no que concerne à criação de mecanismos que coíbam tais recorrências. Segundo o pensador Thomas Hobbes, o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população, entretanto, isso não ocorre no Brasil. Dessa forma, devido à falta de atuação das autoridades em relação ao poder do voto como instrumento das mudanças sociais são gerados problemas como, por exemplo, a descrença e o desinteresse no sistema político, a “ideologia” do voto nulo ou branco e a corrupção endêmica. Com efeito, tal realidade não mudará enquanto os governantes não enxergarem o problema como consequência de suas ações negligentes.
Ademais, vale salientar o clientelismo político como propulsor do problema. De acordo com a Constituição Federal de 1988, todo cidadão tem o direito ao voto. Partindo desse pressuposto, o “voto de cabresto contemporâneo” atua na destituição dessa garantia, visto que está relacionado à venda de votos e a troca de favores pessoais, os quais refletem diretamente na perda da autonomia e do poder de escolha dos cidadãos, na perpetuação dos problemas sociais, no retrocesso político e na exploração da população. Logo, é inadmissível que em um País oficialmente democrático o Governo não garanta o acesso igualitário ao voto e seus benefícios.
Por conseguinte, medidas exequíveis são fundamentais para atenuar o avanço desse empecilho no corpo social brasileiro. Outrossim, necessita-se, prementemente, que o Governo Federal, na condição de responsável pelos interesses da administração federativa, encaminhe capital que, por intermédio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, será revertido em ações para combate à corrupção e desinformação, por meio de políticas públicas, palestras em escolas e fiscalização. Desse modo, atenuar-se-á, em médio e longo prazo, o impacto nocivo dos problemas relacionados ao voto, e a coletividade se aproximará da sociedade ideal proposta por Campanella.