ENEM 2002 - O direito de votar

Enviada em 29/10/2020

“E o povo possuído pela sua beleza esquecida se transformará em guerreiros e se dedicará à única tarefa que vale a pena, que é a de transformar os sonhos em realidade”. A frase é do teólogo Rubem Alves e retrata os seus almejos para a política brasileira, que deveria, segundo ele, ser uma ferramenta para a promoção da felicidade da população. Análogo a isso, a Constituição de 1988 estabelece voto universal para a população, porém, 32 anos após a sua promulgação e o voto ainda não realizou todas as transformações sociais necessárias. Por isso, é preciso analisar como o voto poderia ampliar a representação das minorias e protestar contra a política tradicional, a fim de promover mudanças sociais. A princípio, é necessário entender que ao incluir minorias nos plenários, pautas importantes para o desenvolvimento social passam a ser debatidas. Isso porque a diversidade nos poderes Executivo e Legislativo traz consigo maior diversidade de intenções e maior representatividade, uma vez que em um país de dimensões continentais e de cultura tão diversificada, como o Brasil, a homogeneidade é excludente. A título de exemplo, nas eleições de 2018, apenas 15% das cadeiras da Câmara foram conquistadas por mulheres, o que já é maior que em eleições anteriores, mas ainda se contrapõe à realidade da população brasileira, na qual 56% são mulheres, segundo o IBGE. Assim, é evidente que quanto mais inclusivo for o processo eleitoral maiores mudanças sociais poderão ser promovidas, como no caso das mulheres, que com maior representação podem acabar com a desigualdade salarial de gênero. Ademais, além da inclusão, o voto pode ser usado como método de protesto contra a política tradicional que durante anos vota projetos a favor dos seus e perpetua a desigualdade. Isso se dá, pois, desde a Proclamação da República, latifundiários e empresários se mantém como maioria nos centros de decisão, são os “donos do poder”, como chamou o cientista político Raymundo Faoro, que além de legislar a favor das suas terras e dos seus lucros, dificultam as transformações sociais que são necessárias no Brasil, dentre elas a distribuição de terras. Prova disso é que a Carta Magna de 1988 previa que todas as terras indígenas deveriam ser demarcadas até 1993, no entanto, pressões constantes desse setor inviabilizaram que esse direito fosse garantido. Dessa forma, é evidente que a população deve usar o voto para modificar essa tradição e assim “transformar seus sonhos’’ de desenvolvimento social em realidade. Diante disso, é possível perceber que o voto como uma atitude revolucionária ainda é pouco usado, o que faz com que as transformações sociais sejam pequenas. Por isso, é necessário que organizações populares que estimulam o voto consciente, como o movimento Acredito, continuem disseminando o caráter revolucionário do processo eleitoral e estimulando, assim, a criticidade dos eleitores, por meio das redes sociais e encontros para discutir a política desde o âmbito municipal até o federal, para que eles passem a escolher candidatos que os representem e que lutem pelas demandas da sociedade. Desse modo, a política se tornará representativa, inclusiva e mais igualitária.