ENEM 2002 - O direito de votar

Enviada em 01/11/2020

Na obra “Utopia”, de Thomas More, é retratada uma ilha na qual reside uma sociedade plenamente justa, com participação racional do corpo social no âmbito político. Fora da ficção, vê-se no cenário brasileiro a necessidade de desconstrução da ideia do voto como um fim e, não como um meio ativo, incumbido para a realização de transformações sociais. Tal ideologia é sustentada pela ineficácia do sistema educacional brasileiro em formar cidadãos conscientes e pela corrupção enraizada na esfera pública. Desse modo, reflui-se o caráter modificativo da realidade atribuído ao sufrágio universal.

A priori, para haver progresso na luta de classes, é necessária a consciência da população acerca das responsabilidades de caráter coletivo. Assim, segundo Theodor Adorno, sociólogo alemão, o ensino deve ser uma arma de luta social, pois, de fato, contribui para a formação da consciência crítica e permite aos indivíduos desvendar as contradições da coletividade. Nessa perspectiva, o povo precisa saber de seus direitos e deveres antes de exercê-los alienadamente. Logo, cabe as instituições de ensino, promover o saber humanístico e elucidativo , que consequentemente gera uma luta inteligente por mudanças sociais, políticas e econômicas na atual conjuntura.

Não obstante, a corrupção é uma constante na historicidade política brasileira e corrobora para a manutenção das desigualdades no país. Tal fato é comprovado pela pesquisa realizada pelo TSE, em 2018, na qual 48% dos eleitores confirmaram ter conhecimento ou testemunhado a prática ilegal da compra de votos. A descrença política, causada pela constância da corrupção, leva à parcela do eleitorado a vender seus votos em trocas de favores pessoais. Nesse sentido, o bem individual é sobreposto ao bem-estar comum e, novamente, intensificam-se as desigualdades e a desmoralização presentes na sociedade, que contribuem para a degeneração da cidadania cônscia e progressista.

Faz-se necessária, portanto, que medidas sejam tomadas para resolver esse impasse. Cabe ao Ministério da Educação implementar na grade curricular do ensino médio, a conscientização cívica obrigatória, por meio de debates acerca das problemáticas da comunidade, buscando soluções proativas, baseadas no conhecimento, gradativamente construído, dos direitos e deveres sociopolíticos. Já o Tribunal Superior Eleitoral deve estimular os eleitores a conhecerem o funcionamento do processo eleitoral brasileiro por completo, com o fito de fixar na mente da população as consequências à longo prazo do voto alienado. Somente assim a nação brasileira se aproximará dos utopianos descritos por More, íntegros e plenos do seu poder e dever nas transformações sociais.