ENEM 2002 - O direito de votar
Enviada em 28/10/2020
Um dos princípios fundamentais expressos na Carta Cidadã é o da soberania popular, isto é, “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. De certo, trata-se de uma das maiores conquistas nacionais referentes à cidadania, uma vez que por séculos o direito ao voto excluía grande parcela da população: mulheres, analfabetos e homens pobres. Assim, essa vitória democrática não somente pode, como deve ser um meio para promover as transformações sociais de que o Brasil necessita para progredir.
Em primeiro lugar, descontruir a mistura entre relações públicas e privadas no Brasil é fundamental. O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda – em Raízes do Brasil – explicita como no decorrer da formação da nação origina-se o jeitinho brasileiro. Em suma, nas relações sociais não há a separação que deve ter entre o que é privado e o público, os sujeitos – entre eles servidores públicos - trocam favores, beneficiam os familiares e amigos em detrimento dos demais e a corrupção é presente em sempre, em diversos graus. Desse modo, sem a desconstrução dessas características de nosso povo não haverá políticos que cumpram devidamente seus deveres e a corrupção continuará sendo entrave para o desenvolvimento do país e de seus cidadãos.
Acrescente-se que, é essencial que se alterem os critérios utilizados pela população na escolha de seus representantes. Estudiosos demonstram que uma característica comum na política da América Latina é a escolha de líderes populistas, indivíduos carismáticos que conquistam a simpatia e apoio popular. Além disso, há, por exemplo, a contratação de funcionários temporários em troca de apoio a prefeitos e vereadores, e não pela sua capacitação (o jeitinho brasileiro). E, considerando os altos níveis de desemprego, perpetua-se um ciclo de políticos que não cumprem sua função e indivíduos que ao invés de eleger quem seja melhor para o povo, apoiar quem lhe favorece no âmbito privado.
Assim, os políticos representam o povo e, para tanto, devem ser eleitos por ter uma boa formação, uma ficha limpa, o decoro e a eficiência necessária para assumir um cargo tão relevante. Para que isso seja possível, o Ministério da Educação deve incluir na Base Nacional Comum Curricular a disciplina Ensino Cidadão e Pátrio, de modo a despertar o pensamento crítico dos estudantes, ensinar sobre a cidadania, aos poucos descontruir o jeitinho brasileiro, demonstrar que quando um país se desenvolve o povo progride junto a ele e, por fim, esclarecer que indivíduos independentes intelectual e profissionalmente não precisam ou querem favores, mas sim políticos que verdadeiramente os representem.