ENEM 2002 - O direito de votar

Enviada em 31/10/2022

Na obra “Utopia”, o escritor Thomas More retrata uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. Entretanto, o que se observa no cenário atual brasileiro é o oposto do difundido pelo autor, haja vista que o direito de votar e sua relação com as transformações sociais ainda é um entrave a ser mitigado. Nesse contexto, cabe discutir o fato de que o problema existe devido não só ao individualismo, como também ao silenciamento sobre o assunto.

Em primeira análise, a falta de empatia é um desafio presente na problemática. Isso acontece porque, de acordo com Jane Austen, “metade do mundo não consegue compreender os prazeres da outra metade”. Nessa perspectiva, tal falta de compreensão ilustra o individualismo presente no direito de votar, visto que apesar de ter sido uma conquista difícil, muitas pessoas ainda não se interessam por assuntos políticos, mesmo sabendo que são a base para as transformações sociais. Logo, é preciso diminuir esse hiato de compreensão por meio da empatia.

Além disso, outra dificuldade enfrentada é o caso da invisibilização do tema. Sob esse viés, segundo Habermas, só a discussão ampla sobre um problema pode ser a base ética da sociedade. Nesse sentido, tal base está desestruturada pela falta de um debate massivo sobre o direito de votar, principalmente na questão de sua relação com as transformações sociais, uma vez que quase não se discute sobre o assunto no cotidiano das pessoas. Com isso, surge a dificuldade de solucionar um problema que nem sequer é prioridade nas conversas. Dessa forma, é imperioso criar uma ação comunicativa, como defende o pensador.

Portanto, faz-se necessária uma intervenção. Para isso, o Conselho Federal de Psicologia - autarquia de direito público que orienta e fiscaliza os psicólogos - deve criar um treinamento gratuito sobre empatia, por meio de aulas ao vivo nas redes sociais, a fim de reverter o individualismo que afeta o direito de votar. Paralelamente, o Instagram - rede social online de compartilhamento de fotos e vídeos - deve criar uma campanha que trate desse tema, por intermédio de tutoriais com orientações precisas, com o fito de superar o silenciamento que impera. Assim, o corpo social retratado por Thomas More poderá existir.