ENEM 2003 - A violência na sociedade brasileira
Enviada em 10/11/2021
Na obra ‘‘Sobre o autoritarismo brasileiro’’, a historiadora Lilia Schwarcz aponta uma série de pilares para a sustentação da realidade autoritária hodierna, tais como: a escravidão, o racismo, a desigualdade social e a de gênero. A partir dessa perspectiva, pode-se compreender a acumulação social da violência e como o autoritarismo foi socialmente implantado, pois apesar da finalização de regimes escravocratas, antidemocráticos e arbitrários, a sociedade permanece com esses valores. Sendo assim, a persistência da violência e a banalização da mesma precisam de urgente intervenção.
Primordialmente, no período colonial, a cultura do estupro e a objetificação dos corpos de mulheres negras e índigenas em adição à estrutura patriarcal têm se mantido como a base da brutalidade familiar. Sob essa ótica, o psicanalista Winnicott relata o impacto na sociabilidade das crianças o contato com essa cultura violenta e a reprodução dessa agressividade nos ambientes externos. Sendo assim, a manutenção dos níveis de arbitrariedade vivenciados no corpo social começa no primeiro núcleo de convivência: a família. Além disso, a desigualdade social está intimamente relacionada aos crescentes índices de violência, dado que os mais afetados pela exclusão e discrepância salarial é a população negra e, simetricamente, os jovens negros são as maiores vítimas de homicídio no Brasil, assim como a maior porcentagem de mulheres assassinadas são negras.
Outrossim, a banalização dos diversos tipos de violência acarreta efeitos colaterais para o cenário nacional. O primeiro deles é a espetacularização da tragédia, impulsionada por programas televisivos extremamente sensacionalistas, que estimulam a mentalidade punitivista e o sentimento de vingança nos expectadores, com o viés de chocar as pessoas a partir da cobertura antiética de crimes atrozes. No entanto, de acordo com uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 62% dos moradores das cidades têm medo de sofrer agressão por parte da polícia. Tal dado revela, então, que embora o censo comum possua a tendência de combater a violência com mais ímpeto, a própria população tornou-se refém desse sistema de segurança ineficaz e opressivo.
Em suma, o direito à vida deve ser garantido para todos de forma universal. Para tal, é imperativo o investimento do Estado na prevenção da violência, por meio do compromisso assíduo em reduzir as desigualdades a partir da redefinição das prioridades do orçamento público. Os Ministérios da Educação e da Saúde devem garantir que os cidadãos tenham acesso à educação gratuita dos primeiros anos até a universidade e que sejam amparados pelo Sistema Único de Saúde quando necessitarem, respectivamente. Também são necessárias políticas afirmativas para a redução da diferença salarial, atuação do Ministério do Trabalho. Assim, esse panorama poderá ser revertido.