ENEM 2004 - Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação?
Enviada em 14/08/2020
Em um dos capítulos de seu livro “A civilização do espetáculo”, Mario Vargas Llosa aborda a questão da “espetacularização” da violência retratada nas mídias informacionais. Embora a liberdade de acesso a informação e compartilhamento da mesma seja um direito de extrema importância na democracia brasileira, problemas como o abordado pelo autor e a ocorrência da “criação” de notícias nos meios de comunicação modernos representam empecilhos para o pleno proveito desse direito. Torna-se necessário o conhecimento de que também há a necessidade de cumprir-se deveres sociais.
Segundo a visão de Mario Vargas Llosa, a mídia jornalista atual promove uma “espetacularização” das tragédias mais violentas e chocantes, com o intuito de informar submetido ao de entreter. É plausível associar tal análise ao que ocorre no âmbito das notícias brasileiras, no qual mesmo as fontes de informação menos sensacionalistas priorizam a cobertura dos eventos mais catastróficos. Com elevada frequência, observa-se a presença de acidentes, desastres naturais e atos de violência como principais temas abordados em noticiários nacionais. Em decorrência dessa busca por entretenimento, torna-se comum que mídias jornalísticas, com vistas a coletar as informações mais chocantes a respeito de determinado acontecimento, desrespeitem gravemente a privacidade dos indivíduos envolvidos. Trata-se, portanto, de um uso errôneo da liberdade concedida à mídia informacional brasileira.
Ademais, há o fenômeno da propagação das notícias falsas, ou “fake news”, por intermédio de redes de comunicação modernas altamente abrangentes, tais como as redes sociais. As notícias falsas possuem, majoritariamente, o intuito de desmoralizar um indivíduo ou uma ideia, a exemplo das informações sem fundamento científico divulgadas acerca dos efeitos da vacinação. Essas falsas informações impulsionaram a adesão de muitas pessoas ao movimento anti-vacina brasileiro contemporâneo, o que representa uma grave ameaça à saúde pública. Infere-se, portanto, que as “fake news”, ao tomarem grandes proporções, podem originar consequências severas.
Dessa forma, é essencial que haja conscientização acerca do risco de se receber ou compartilhar notícias falsas. Cabe às mídias informacionais utilizar os veículos de comunicação mais abrangentes para promover alertas aos usuários para que busquem confirmar a veracidade de uma informação antes de compartilhá-la. Assim, a circulação de “fake news” será limitada. No que concerne à questão dos noticiários, é necessário que organizações como o Observatório da Imprensa brasileiro defendam a importância do direito à privacidade acima da necessidade de entretenimento, a fim de influenciar positivamente outros fóruns informacionais do país. Uma sociedade democrática oferece direitos amplos, mas, logicamente, exige o cumprimento de deveres para o seu bom funcionamento.