ENEM 2005 - O trabalho infantil na realidade brasileira

Enviada em 10/01/2021

Na obra “Utopia”, escrita pelo filósofo inglês Thomas More, é descrita uma sociedade ideal na qual a pobreza é inexistente e todos possuem os mesmos direitos e oportunidades. Fora da ficção, tal realidade está distante de ser concretizada no hodierno contexto nacional, posto que a escassez aflinge de maneira tão exacerbada grande parte da população que o trabalho infantil tornou-se cotidiano. Isso ocorre ora devido à precária educação pública, ora em decorrência de fatores familiares coercivos.

Primeiramente, é imperativo relacionar a péssima situação das escolas públicas com a análise de Darcy Ribeiro. Segundo o antropólogo brasileiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. Nessa perspectiva, o cenário de desigualdade social é mantido pela falta de instrução adequada da população mais pobre e,covardemente, aparenta fazer parte de uma estratégia do próprio governo, como forma de manter a estrutura hierárquica atual, na qual os ricos possuem mais oportunidades e monopolizam o estudo de qualidade. Assim, tem-se o aumento do trabalho de crianças carentes, como consequência da falta de esperança do crescimento social por meio da educação.

Posteriormente, é imperioso concatenar o papel da família com o conceito de “Mortificação do Eu” de Erving Goffman. Conforme o sociólogo canadense, o indivíduo tende a abrir de mão de sua subjetividade quando exposto a fatores coersivo, como forma de obter alívio psicológico. Sob esse viés, é frequente nas famílias que sofrem em virtude da falta de recursos básicos exigir que o jovem trabalhe para ajudar nas despesas e, com isso, abandone a juventude e passe para a vida adulta. Assim, mesmo que a criança prefira permanecer na escola e concretizar sua formação, ela cede, como forma de acabar com a pressão.

Depreende-se, portanto, a essencialidade de mudanças para tornar possivel a mitigação do trabalho infantil. Logo, necessita-se, urgentemente, que o Tribunal de Contas da União direcione capital que, por intermédio do Ministério da Educação, seja revertido na melhoria da infraestrutura e qualidade de ensino das escolas públicas. Essa ação deve ser concretizada por meio da ampliação das salas de aula e contratação de um corpo docente competente, para possibilitar uma excelente ministração, a fim de aproximá-la da qualidade de colégios privados. Ademais, faz-se imprescindível a criação de áreas com a presença assídua de psicólogos, os quais terão como objetivo receber os alunos e as respectivas famílias, com o intuito de convencê-los a respeito da importância dos estudos para a ascensão social e fazê-los permanecerem na escola. Dessa forma, mediante à nova esperança dada aos estudos, consequentemente, o trabalho infantil será reduzido e o Brasil amenizará tal triste realidade, o qual se aproximará, paulatinamente, da sociedade descrita em “Utopia”.