ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura
Enviada em 05/09/2019
Apenas teoria
Um dos legados mais significativos teorizados pelo pedagogo Paulo Freire, na obra ‘‘O Ato de ler’’, foi a importância da leitura como ferramenta de democratização do conhecimento e artifício indispensável para a interpretação do meio social. No entanto, as ideologias do patrono da educação brasileira tornam-se fragilizadas face ao, ainda, expressivo quantitativo de analfabetos no território verde-amarelo. Com efeito, a problemática pressupõe a necessidade da intervenção de agentes sociais.
A princípio, é coerente frisar que o incentivo à educação, no Brasil, ocupou segundo plano frente outras medidas desenvolvimentistas históricas. Isso se evidencia, principalmente, a partir da análise dos principais governos do país, como o de Getúlio Vargas – que consolidou a modernização e o apreço econômico a diversas áreas sociais, mas manteve, contudo, a educação à margem. Ocorre que, mesmo quase um século depois, a alta taxa de analfabetismo reflete a persistência da ineficácia do poder público em medidas contrárias ao entrave social. Dessa forma, entende-se que enquanto a inércia do Estado for regra, o progresso de indivíduos exclusos da leitura será exceção.
Além da restrição histórica no incentivo à alfabetização, as consequências da ausência desse mecanismo culminam em danos significativos. A esse princípio, o filósofo iluminista René Descartes entende como ceticismo a capacidade primordial de questionamento do homem, que ocupa um pilar indispensável para a legitimação de uma sociedade mais justa e detentora de conhecimento de mundo. Entretanto, a omissão do acesso à leitura contribui para a minimização desse princípio cartesiano e, assim, auxilia na construção de indivíduos mais inativos no viés social e à mercê de qualquer ideologia. Em suma, a fim de criar indivíduos mais céticos, urge criar e aprimorar medidas profiláticas.
Impende, pois, que o poder público e as escolas brasileiras cumpram, na prática, termos enfatizados na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que garante aos indivíduos o pleno acesso à alfabetização. Com tal fito, compete ao Ministério da Educação intensificar o amparo a crianças com dificuldade de leitura, por meio do desenvolvimento de novas atividades lúdicas, as quais intencionem, com fidelidade, alfabetizar todas as crianças até determinada idade. Por sua vez, os órgãos municipais devem criar e aprimorar, principalmente em áreas de maiores defasagens de leitura, aulas abertas para toda a sociedade em diversos horários, a fim de atenuar a considerável taxa de analfabetismo vigorante no Brasil moderno. Por conseguinte, construir-se-ia um país cujos indivíduos seriam mais detentores de conhecimento, aptos na leitura e, com isso, as premissas freirianas deixariam de ser apenas teoria.