ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura

Enviada em 24/03/2020

No universo literário de “Fahrenheit 451”, é evidenciado um panorama de incineração de obras literárias, isto é, um decreto estatal que incentiva a queima de todas as bibliotecas locais, de forma a, sobretudo, ofuscar a cultura e a história endêmicas perante a nova geração de cidadãos. Fora da ficção, hodiernamente, observa-se um grave quadro de ofuscamento literário, no entanto, esse se configura por, principalmente, outro motivo: a falta do hábito da leitura por grande parte dos brasileiros. Nesse contexto, é válido apontar a mercantilização dos livros como uma proeminente causa do problema, a qual, infelizmente, potencializa o analfabetismo funcional no Brasil.

Cabe ressaltar, em primeiro plano, que, no contexto atual, os livros são tratados como mercadorias, o que corrobora a “Indústria Cultural” de Adorno e Horkheimer, da escola de Frankfurt. Nessa teoria, os filósofos apontam uma tendência capitalista, que circunscreve a cultura mundial, ou seja, os livros, por exemplo, são simplesmente produtos, os quais aguardam um consumidor financeiramente apto. Sendo assim, as obras literárias são extremamente direcionadas com base na condição financeira do leitor, o que segrega as pessoas mais pobres, maioria dos brasileiros, e intensifica a problemática. Destarte, nasce a necessidade de sustentar essa “Indústria Cultural” com outras alternativas senão os indivíduos.

Por conseguinte, enquanto essa conjuntura perdurar, a mercantilização literária promove o analfabetismo funcional no Brasil. Sabe-se que a leitura é uma exímia prática no que concerne ao aprendizado efetivo da língua, e a criação de seu hábito é, desde a infância, essencial. Entretanto, como os livros, atualmente, são direcionados, grande parte das crianças, no país, não terão acesso precoce a esse hábito. Nesse viés, considerando a teoria de Charles Duhigg no livro “O Poder do Hábito”: “a falta deles - hábitos – agravam a obsolescência das nossas capacidades”, é válido dizer que o analfabetismo funcional é intensificado pela falta da leitura, visto que ela é protagonista na formação comunicativa dos indivíduos.

Infere-se, portanto, diante da tempestividade da problemática, que compete ao Governo o dever de, por meio de políticas públicas e verbas governamentais, democratizar o acesso à leitura no Brasil, construindo bibliotecas públicas, suprindo arsenais escolares com obras literárias e, mormente, arcar com as despesas referente a livros. Desse modo, visando atenuar os índices de analfabetismo funcional e incentivar a leitura como hábito desde cedo, observar-se-ia uma sociedade mais erudita, capaz de incitar um país melhor e que não arca com a “Indústria Cultural”, dos pensadores de Frankfurt, referente à literatura, de forma a divergir do panorama ficcional de “Fahrenheit 451”.