ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura

Enviada em 26/04/2020

“Vi ontem um bicho na imundície do pátio catando comida entre os detritos (…) o bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.” O clássico poema “O bicho”, do grande Manuel Bandeira, traz a tona a necessidade de reflexão pela sociedade brasileira sobre o poder de transformação da leitura, como um instrumento de desenvolvimento sócio cultural da nação. É inegável, o quanto o acesso às páginas de um um livro, de um poema, ou de um conto são capazes de construir um olhar crítico do indivíduo, perante a realidade da qual faz parte. No entanto, no atual cenário do país, o hábito da leitura encontra sérios entraves, que vão desde uma diferença histórica entre classes sociais a uma educação deficiente e com caráter excludente.

Inegavelmente, a semana de arte moderna de 1922 foi um marco dentro do contexto cultural vivido pelos brasileiros até então. A inovação da arte e da literatura, através de nomes como Oswald de Andrade, Anita Malfatti, dentre outros por exemplo, trouxeram uma inovadora forma de escrita e leitura para a sociedade da época, a qual reagiu àquele modelo inovador. Desde já, eram extremamente visíveis as diferenças existentes entre classes sociais, uma vez que, a educação e cultura só se faziam mais presentes para àqueles que detinham o poder de capital, pois as grandes obras literárias não estavam disponíveis à leitura dos menos favorecidos. Diante disso, essa injusta diferença social, que perdura até dias atuais só incrementa o desnível existente entre quem pode ou não ter acesso a uma obra ou texto, o que deve ser visto como um mecanismo de libertação e desenvolvimento de um povo.

Ademais, a educação precisa ser encarada como o principal meio de promover cultura e progresso social, pois como já dizia o grande escritor Paulo Freire: “é através da educação que se pode mudar uma sociedade”. Com base nisso, é a partir do direito à escola, que deve ser garantido a cada cidadão, o hábito da leitura, a fim de que a mesma possa ser cada vez mais vista como um processo de evolução do indivíduo. Diante do exposto, a  garantia de acesso de forma universal e igualitária a todos, desde a educação básica até a superior, minimiza diferenças sociais arcaicamente presentes no país.

Contudo, a democratização do acesso à leitura só será possível através garantia de um ensino universal e igualitário. Para isso, o Ministério da educação e cultura em parceria com o Ministério de desenvolvimento social devem em médio prazo, promover junto às escolas, o fortalecimento de um sistema cada vez mais includente, podendo para isso utilizarem-se de ferramentas tecnológicas, como a oferta de internet aos alunos ou ainda a disponibilidade de livros digitais. Além do mais, podem promover junto à sociedade o acesso a bibliotecas intinerantes em grandes comunidades, ou em locais de acesso remoto. Diante disso, faz-se da leitura, um instrumento de transformação sócio cultural.