ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura
Enviada em 29/04/2020
O livro “A menina que não sabia ler”, escrito por John Harding, pode ser facilmente contemplado como objeto de análise do viés transformador da leitura. Nessa perspectiva, a obra narra a história de Florence - uma criança de doze anos - apaixonada por livros, mas que tem o acesso privado pelo tio que acreditava que as mulheres não deveriam ser alfabetizadas. Contudo, ela aprende a ler escondida do tio e vive aventuras surpreendentes no mundo da leitura. Analogamente, a realidade não é diferente visto que muitas crianças são privadas do acesso a leitura, não só pela falta de instrumentos, mas também pela falta de tempo para se dedicar aos estudos. Assim, aspectos relacionados à desigualdade social e os seus reflexos na vida dos indivíduos devem ser analisados.
Em primeiro lugar, é inquestionável que o Estado é responsável por garantir que todos tenham acesso à educação e, consequentemente, à leitura. Desse modo, o artigo 205 da Constituição Cidadã, prevê a importância do papel estatal na questão educacional, já que é visível o seu poder de transformar a vida do homem. Não obstante, o maior problema encontrado para garantir que as crianças se aprofundem na leitura desde cedo é a desigualdade social, visto que muitas realidades exigem a dedicação dos indivíduos às obrigações domésticas. Dados divulgados pelo movimento Todos Pela Educação, mostram que a evasão escolar é um dos principais motivos da ineficácia do sistema educacional. Nesse sentido, é importante reconhecer que uma família que passa por dificuldades financeiras não tem facilidade para manter seus filhos na escola, quanto mais de estabelecer uma rotina doméstica de leitura.
Em segundo lugar, são perceptíveis os reflexos danosos da falta de leitura para o intelecto do homem, uma vez que a leitura é essencial para formar o imaginário do indivíduo e, principalmente, para suscitar o senso crítico na mente humana. De acordo com Immanuel Kant, filósofo prussiano, estado de menoridade é a incapacidade do indivíduo de se submeter ao uso de seu próprio entendimento. Com base nesse pensamento, é indiscutível o poder que o hábito de ler tem para transformar a realidade das pessoas, haja vista a forma com que estimula o raciocínio dos homens, garantindo não só o seu desenvolvimento cognitivo, mas também pessoal no contexto social.
Logo, o Governo Federal, em parceria com o Ministério da Educação, deve articular e desenvolver projetos que visem a formação leitora dos indivíduos, seja na escola ou auxiliando os pais em visitas domiciliares para conhecer a realidade do aluno - por meio de profissionais da educação comprometidos com a formação intelectual dos indivíduos - a fim de garantir oportunidades e permitir que sejam como Florence, que buscava o conhecimento mesmo em condições adversas.