ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura

Enviada em 01/05/2020

O filme “A menina que roubava livros” é retratado no contexto da Alemanha nazista, em que diversas obras literárias eram proibidas. Entretanto, a personagem principal, uma jovem judia adotada por uma família alemã, arriscava-se constantemente para ter acesso à leitura, o que ilustra o seu forte interesse por essa prática. Contemporaneamente, no Brasil, ao observar o alto desinteresse pela leitura por diversos indivíduos, é possível afirmar que a realidade atual vai de encontro à ação da pequena judia, o que provoca uma subutilização de um dos principais poderes do ato de ler: a transformação. Com efeito, essa problemática persiste no cenário nacional como sequelas derivadas da cumplicidade do corpo social e da ineficácia da Escola.

Em uma primeira análise, a compactuação de boa parte do coletivo alicerça o problema. Essa percepção tem origem no desconhecimento da sociedade acerca da complexidade dos atributos da leitura, o que provoca a normalização de um papel secundário atribuído a essa prática. Nesse sentido, Michel Focault, em “A Mícrofísica do Poder”, reflete que a própria sociedade é capaz de trabalhar conjuntamente a fim de formar sujeitos “dóceis”, passivos, resignados, que naturalizam certas realidades e se omitem perante essa conjuntura, a qual está intimamente ligada à inércia da força dos livros, causada por inúmeros cidadãos. Dessa forma, torna-se evidente que o comportamento negativo da sociedade impede que as obras literárias exerçam o seu papel de transformação, o que prejudica o crescimento da intelectualidade e da qualificação psicossocial dos brasileiros.

Ademais, em um segundo plano, a frágil atuação escolar apresenta estreita relação com o obstáculo. Essa correlação pode ser explicitada pelo estímulo ineficiente à leitura por parte dos ambientes estudantis, visto que há uma desorganização da aplicação de livros didáticos em várias escolas. Devido a isso, crianças são postas a ler obras de séculos passados, com uma linguagem de difícil compreensão, o que gera, desde o início do processo de alfabetização, uma aversão a essa prática pelos pequenos. Desse modo, como consequência disso, um sentimento de desinteresse começa a ser moldado, o que afasta as positividades promovidas pelos livros, como a potencialização da capacidade crítica.

O caráter do coletivo, em paralelo à ação precária das escolas, portanto, consubstancia esse entrave social. À vista disso, para reverter esse quadro, a Escola, além de selecionar melhor os livros didáticos para provocar interesse nos alunos pela leitura, deve estimular os brasileiros a essa prática, por meio de debates e palestras abertos ao público. Isso pode ocorrer, por exemplo, com a intermediação de profissionais capacitados, como professores de letras  e escritores, a fim de