ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura
Enviada em 21/05/2020
No livro “Utopia”, do escritor Thomas Morus, é retratado uma sociedade perfeita, ausente de problemas e de conflitos. Entretanto, tal situação opõe-se à realidade brasileira, uma vez que há inúmeros desafios para fomentar a leitura no Brasil, os quais corroboram para o distanciamento da sociedade utópica descrita pelo autor. Desse modo, cabe avaliar que a indicação de livros inadequados nas instituições escolares e a cultura da “não leitura” do brasileiro são fatores que impedem o estímulo da leitura no país hodierno.
Em primeira instância, é válido ressaltar que as escolas possuem um papel fundamental no desenvolvimento da leitura nos indivíduos. Segundo o filósofo francês Michel Foucault, as escolas podem ser inclusas em seu conceito de “Instituição Sequestro”, visto que possuem o objetivo majoritário de impor disciplina e adestramento ao invés do desenvolvimento pessoal do aluno. Nesse sentido, apesar das escolas serem fontes de fomento à leitura, a indicação de obras no âmbito do vestibular, com linguagens rebuscadas e, consequentemente, de difícil compreensão resulta no desestímulo dos indivíduos na busca pela leitura. Logo, a escassez do avanço da leitura no período escolar pode implicar na privação do desenvolvimento de um senso crítico pela juventude.
Em segundo plano, cabe ressaltar que a falta de um corpo social adepto à leitura relaciona-se diretamente a uma herança cultural. De acordo com a teoria de “Habitus”, do sociólogo francês Pierre Boudieu, a sociedade incorpora as estruturas sociais impostas à sua realidade e após incorporada é naturalizada e reproduzida ao longo das gerações. Seguindo essa linha de raciocínio, é notório que a cultura do brasileiro pode ser interpretada predominantemente pela oralidade ao invés da textualidade,. Isso se justifica, sobretudo, devido ao alto índice de analfabetismo, que segundo o IBGE, em 2019, 11,3 milhões de pessoas acima de 15 anos foram consideradas analfabetas no Brasil. Assim, o hábito da leitura não é totalmente incorporado no país, o que promove uma substituição parcial pelos filmes e séries de TV.
Evidencia-se, portanto, a necessidade de realizar mudanças para transformar o cenário brasileiro contemporâneo. Dessa maneira, é fulcral que o Ministério da Educação inclua a leitura obrigatória de livros de fácil entendimento no ciclo escolar, por meio da introdução da leitura na matriz curricular brasileira. Isso deve ser feito com a pesquisa de opiniões dos alunos de instituições escolares para melhor apuração das obras a serem requeridas, a fim de impulsionar de modo significativo o incentivo à leitura junto ao desenvolvimento do senso crítico, promovendo, dessa forma, a aproximação do corpo social à sociedade narrada por Thomas Morus.