ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura
Enviada em 10/07/2020
“O leitor”, filme de meados dos anos 2000, aborda a história de uma guarda nazista e o drama que a levou à morte por não ler e interpretar as ordens que recebia. Para além da ficção, no entanto, a prática da leitura se constitui em um vetor de desenvolvimento subutilizado, produto da precária escolarização e da concorrência com os meios de informação instantâneos da atualidade. Dessa maneira, o valor incorporado pelo ato de ler é perdido, o que resulta na falta de senso crítico coletivo e de empoderamento da pessoa enquanto cidadão.
Em primeiro lugar, vale salientar, que é necessário que se ensine a população a ler para, então, entender o mundo a qual se insere. Nesse contexto, dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontam que o país possui cerca de 38 milhões de analfabetos funcionais, cuja interpretação de simples textos é nula. Decorre desse fato, por suposto, a manutenção de um estado de alienação, consequência de uma “crise de leitores”, remediada apenas, segundo Paulo Freire, com a instituição de uma educação libertadora e com a prática da leitura para transformação de realidades. Uma educação que, sobretudo, estabeleça uma voz a ser ouvida.
Por outro lado, há um pseudo-entendimento, na contemporaneidade, de que ler apenas manchetes, textos rápidos e notícias repassadas por redes sociais é um ato efetivo de leitura. Invariavelmente, 56% dos brasileiros não leem livros, de acordo com o Instituto Pró-Livro, em levantamento de 2019. Tal como posto, perde-se a essência nata da leitura, que consiste no poder concedido ao leitor de que ao vivenciar os dramas do escritor, experimentar os próprios, conduzindo-o ao autoconhecimento. Um valor, portanto, de ter a consciência que somos o que lemos, e ler aquilo que somos, em uma permanente e constante construção.
Logo, é fundamental para a resolução dessa problemática, a organização de um projeto capitaneado pelo Ministério da Educação, em parceria com as mídias digitais e editoras, com objetivo de transversalizar e disseminar, nas diversas estruturas sociais, o ato da leitura. Dessa forma, atividades lúdicas, tecnológicas, subsídio à compra de livros e bonificação profissional serviriam de estímulo aos adultos, crianças e idosos, à medida em que proporcionasse crescimento profissional, social e pessoal. E, assim, evitar cair no erro da guarda alemã, presa em sua falibilidade por não acatar uma prática deveras libertadora e eficiente para a ascensão social e humana.