ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura
Enviada em 05/08/2020
De acordo com o sociólogo Émile Durkheim, para o desenvolvimento pleno de uma sociedade, é imprescindível a presença da “solidariedade orgânica”, a qual consiste na interdependência e na diversidade entre os indivíduos de modo a gerar um meio harmônico e coeso. Todavia, a leitura no Brasil configura-se como uma quebra dessa diretriz solidária, haja vista que o sistema escolar, assim como a influência parental, mostram-se presentes na formação dos jovens.
Em primeira instância, o sistema de ensino das escolas representa um sério problema na contemporaneidade. Para o educador e escritor Rubem Alves, os vestibulares determinam a filosofia de educação dos colégios, os quais enfatizam a máxima quantidade de questões acertadas. Nesse contexto, de aprovação imediata, instituições de ensino desprezam horários destinados a estimular o interesse e a curiosidade em livros, voltados para alunos da educação infantil ao ensino fundamental. Assim, ocorre a falta de imaginação e de desenvolvimento intelectual, gerados pela leitura, formando estudantes alienados e com rendimento escolar precário.
Ressalta-se, também, o papel complementar da família na educação. O sociólogo Zygmunt Bauman compara os líquidos, sem forma e em constante transformação, à sociedade pós 2° Guerra Mundial, marcada pela incerteza das relações pessoais e pela rapidez do cotidiano. Nesse sentido, pais e responsáveis não dedicam momentos para apresentar e influenciar a leitura para os filhos, em virtude dos afazeres com o trabalho ou obrigações pessoais, como limpar a casa ou pagar as contas. Ademais, o afastamento dos pais por estresse ou falta de paciência facilita o a ocupação do filho com tecnologias e brincadeiras em detrimento da leitura e dos estudos. Por conseguinte, a pouca influência em ler dificulta o desenvolvimento de habilidades pessoais das crianças, prejudicando a comunicação e a capacidade de interpretação e resolução de problemas na vida em sociedade.
Logo, enquanto o ideal de Durkheim não for posto em prática, enquanto os vestibulares determinarem a filosofia das escolas, enquanto a família não estimular a leitura na primeira infância, o hábito em ler continuará como um desafio a ser suplantado. Desse modo, os colégios tanto públicos como privados devem criar um projeto denominado escola leitora em que todos os dias seja destinado um horário para leitura de livros, de interesse pessoal do aluno, por mês. Esse novo método, afim de formar cidadãos com senso crítico e capazes de interpretar os fenômenos da sociedade de forma coerente, realizariam encontros semanais com os responsáveis para instruí-los à apresentar a leitura de forma correta para os filhos e concientizá-los da importância de ler. Assim, poder-se-á garantir um país organicamente solidário.