ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura

Enviada em 28/09/2021

Na Europa, durante o século XV, ocorreu a revolucionária invenção da imprensa por Johanes Gutenberg, por conseguinte, os indivíduos acessaram uma nova maneira de experienciar o mundo e a realidade ao redor de si. Sob esse enfoque, as obras literárias que eram, até então, posse dos eclesiásticos, passaram a circular pela sociedade, fomentando a criticidade, expandindo a cultura e a autonomia do pensamento. Hodiernamente, o hábito de ler atua na construção da cidadania, além de fornecer as lentes pelas quais o mundo será decifrado.

Primordialmente, Machado de Assis estabeleceu, em sua crônica denominada ‘‘Analfabetismo’’, as relações entre o exercício social e político da população com a ausência da leitura na época. Dessa forma, o autor discorre: ‘‘A constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.’’, isso ocorre pelo fato de que 70% da população brasileira não era alfabetizada em 1876. Logo, observa-se que não havia compreensão da política que afetava a vida de todos, nem do poder do voto e do exercício da cidadania. Sendo assim, a leitura forma cidadãos críticos, participativos e atores de suas próprias vidas.

Outrossim, as desigualdades sociais que geram falta de oportunidades e estímulos ao consumo literário impactam diretamente na qualidade de vida. Tal fato é observado na crônica de José Saramago intitulada ‘‘Carta a Josefa, minha avó’’, na qual o autor diz: ‘‘Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar.’’, e continua discorrendo sobre a forma como o mundo permanece uma interrogação para a avó. Compreende-se, portanto, que os livros e outras fontes literárias oferecem o acesso para diversos saberes e possibilidades de compreensão do mundo, por consequência, os seres humanos conseguem desenvolver suas habilidades cognitivas e criativas.

Portanto, diante do exposto, compreende-se o poder transformador da leitura durante as mais variadas sociedades e épocas vividas. Assim, cabe ao Ministério da Economia a redução dos impostos sobre os livros, para que se possa ampliar a democratização ao acesso do mesmo, visto que há uma parcela da sociedade que deseja consumir mas é impedida pelos altos valores. Ademais, o Ministério da Educação deve complementar essa ampliação investindo nos acervos de bibliotecas públicas municipais, além de expandir outras unidades estrategicamente para regiões periféricas que sofrem com a falta de acesso à serviços no geral. Destarte, as realidades de exclusão relatadas por Machado de Assis e José Saramago não se repetirão mais e a população como um todo poderá desfrutar de todos os benefícios promovidos por essa prática.