ENEM 2006 - O poder de transformação da leitura

Enviada em 19/08/2021

A transfiguração da face ignorante

No clássico infantil “A Bela e a Fera”, a protagonista Bela, habitante de uma simples aldeia, almeja mais do que a pacata vida no interior poderia lhe oferecer. Após estranhamentos com a Fera, apaixona-se pela criatura, pois eles tinham o hábito da leitura em comum. Surpreendentemente, por trás da figura monstruosa, havia o coração de um príncipe admirador de Shakespeare. Metaforicamente, o interesse literário cura as deformidades inerentes à ignorância e constrói a face de indivíduos íntegros. Nesse sentido, torna-se inegável reconhecer o poder transformador dos livros e, consequentemente, conquistar uma sociedade leitora.

A partir disso, faz-se necessário explicitar os impactos positivos da leitura sob duas perspectivas - o processo de formação social e a prevenção de doenças. Segundo o estudo publicado no Trends in Cognitive Sciences, leitores de ficção desenvolvem melhor a habilidade de empatia nas relações sociais, e, conseguintemente, apresentam fortes índices de inteligência emocional. Outra pesquisa, por outro lado, relaciona o hábito com o retardamento do mal de Alzheimer. De acordo com o neurologista André Matta, a prática de atividades que estimulam a concentração, como a leitura, são excelentes medidas profiláticas contra patologias neurodegenerativas. Com base nisso, os benefícios do ato de ler estão além da construção de mentes críticas, e podem ser notados na qualidade de vida. Posto isso, formar cidadãos leitores pode reduzir, à longo prazo, más consequências na saúde pública.

Por essa razão, deve-se discutir estratégias para a implementação da leitura ao cotidiano dos brasileiros, visando uma sociedade conhecedora das ideias de brilhantes pensadores. Pois, assim como ressalta o filósofo francês René Descartes, ler bons livros é conversar com as mais honestas pessoas dos séculos passados. Sob esse viés, democratizar o acesso aos livros e reformar bibliotecas de escolas carentes pode ser um caminho oportuno.

Depreende-se, portanto, a contribuição da leitura para a formação social e a necessidade de torna-la onipresente na cultura brasileira. Para tanto, o Poder Legislativo deve impedir, por meio de emendas constitucionais, quaisquer tentativas de tributar livros. Ainda, em parceria com o Ministério da Educação, cabe aprovar projetos de reformas e melhorias em bibliotecas escolares necessitadas e, futuramente, investir na construção de bibliotecas públicas, fora dos colégios. Tais medidas objetivam, além da democratização literária, o reconhecimento da literatura como força vital da educação. Desse modo, espera-se, no Brasil, cidadãos que, assim como a Fera, da obra infantojuvenil, descubram nos livros um caminho para a transfiguração mágica de uma face tomada pela ignorância.