ENEM 2007 - O desafio de se conviver com a diferença
Enviada em 15/10/2020
A única igualdade é que todos são diferentes. A partir disso, é possível perceber que a dificuldade histórica de se conviver com a diferença, causado pelo egoísmo natural do Homem e motivador de conflitos, é uma ironia. Tal contradição é observada no contexto brasileiro a medida que a defesa de uma igualdade generalizada impede o desenvolvimento político, tecnológico e cultural da sociedade e desvia o foco dos problemas reais.
A incerteza e o instinto de proteção pessoal são reações naturais do ser humano perante ao desconhecido.Porém, nossa sociedade já possui um longo caminho histórico para termos a consciência de que esse egoísmo natural é, na maioria das vezes, uma paranoia e que suas consequências são mais negativas do que as próprias diferenças entre os povos. Como exemplo está a Primeira Guerra Mundial, quando o impulso imperialista justificado pela superioridade entre diferentes nações acabou gerando milhões de mortos e economias destruídas de forma generalizada. A espelho desse comportamento, está a postura intolerante de muitos brasileiros à diversas minorias-como grupos indígenas, homossexuais e religiosos- alinhada a uma polarização política.
Assim, surge a ironia da aversão ao diferente: usufruímos do intercâmbio cultural por meio da gastronomia, festas regionais e tecnologias desenvolvidas por diferentes povos, mas insistimos na defesa de uma igualdade que nos isola. Consequentemente, a divisão política maniqueísta apenas dificulta a construção de um Estado mais justo e eficiente, que de uma maneira ou de outra, é pauta de partidos de esquerda e direita. Além disso, a garantia da liberdade de expressão de grupos diferentes, constitui uma defesa da própria democracia e, logo, da segurança de seu próprio grupo. Dessa forma, tal defesa de uma igualdade ideológica e culturalmente homogênea, apenas desvia o foco de questões realmente importantes e dependentes de uma mobilização coletiva, como a própria fiscalização dos políticos e órgãos públicos e cobrança da investigação de casos de corrupção.
Portanto, o desafio do convívio com a diferença está relacionado a própria incapacidade de entender a importância das divergências para o avanço comum da sociedade, com exposto pelo trecho da canção Ninguém = Ninguém, do Engenheiros do Havaí, “Há tantos quadros na parede, há tantas formas de se ver o mesmo quadro“. Desse modo, é essencial a efetiva mobilização social para assegurar a condenação e punição por crimes de ódio pelo poder Judiciário, muitas vezes falha, para o combate ao egoísmo natural do Homem. Ademais, a promoção de manifestações culturais diversas realizadas pelos governos estaduais e municipais, como de festas regionais ou da parada lgbtq, também é importante para garantir o justo exercício da democracia, sinônimo de integração do diferente.