ENEM 2009 - O indivíduo frente à ética nacional

Enviada em 17/11/2020

“Fazer a manutenção do espanto que é para não se acostumar com o atual estado das coisas”, é o trecho de uma poesia de Francisco Mallmann que pode ser compreendida como um manifesto para que os indivíduos não percam a sua capacidade de se impressionar com os fatos. Nesse sentido, é possível traçar um paralelo com a crise ética vigente no Brasil, na qual situações absurdas de corrupção e violência são aceitas passivamente pela nação. Desse modo, essa inércia pode ser entendida como uma consequência da descrença no poder público e da banalização da imoralidade.

Em uma primeira análise, a indiferença aos valores éticos consubstancia-se no descrédito das autoridades de Estado. Tal situação é decorrente da exaustão da população após a guerra ideológica incitada pelas “fakes news”, a polarização das candidaturas e, sobretudo, as inúmeras denúncias de corrupção envolvendo todos os principais partidos políticos do país. Prova disso, é o expressivo aumento de 60% no número de votos nulos, brancos e abstenções nas últimas eleições presidenciais do país. Assim, devem ocorrer ações relevantes para resgatar o envolvimento da sociedade civil nas questões nacionais.

Além disso, convém ressaltar que a naturalização da criminalidade por parte dos indivíduos é um segundo fator propulsor da generalizada apatia do corpo social. Essa premissa pode ser relacionada ao conceito de “banalidade do mal”, cunhado por Hannah Arendt que analisa a capacidade humana de perder sua sensibilidade mediante determinadas circunstâncias. Sob esse prisma, é possível compreender, por exemplo, o recente relaxamento e descaso da população brasileira em relação à pandemia de corona vírus mesmo após mais de 160 mil mortes. Logo, nota-se como são complexas as questões que envolvem essa problemática.

Portanto, urge-se que sejam tomadas medidas para reverter essa situação. Tendo isso em vista, o Ministério da Educação deve implementar na matriz curricular do Ensino Médio, a disciplina “Arte Crítica”, na qual os estudantes sejam apresentados a diversos manifestações artísticas – filmes, músicas, pinturas, poesia, literatura – que relacionam-se diretamente com o contexto social, político e histórico, de sua produção. Isso pode ser feito por meio de uma didática emancipadora na qual os jovens sejam instigados a refletir e debater a respeito do impacto social dessas obras, associando-as também às suas realidades de vida. Assim, será possível formar futuros cidadãos críticos, conscientes do seu poder de mobilização e que, por fim, não deixem de fazer a “manutenção do espanto” proposta pelo poeta Mallmann.