ENEM 2009 - O indivíduo frente à ética nacional
Enviada em 15/04/2021
Em 1936, o antropólogo brasileiro Ségio Buarque de Holanda desenvolveu o conceito denominado “o homem cordial” para descrever os cidadãos do Brasil. A cordialidade, entretanto, não está relacionada à gentileza, mas sim à maneira nacional de agir pela emoção ao invés da razão, que pode ser ilustrada pela expressão adotada em 1982: o jeitinho brasileiro. Nesse sentido, há no Brasil uma noção patrimonialista estatal, em que o limite entre o público e o privado é quase inexistente, o que corrobora para a corrupção endêmica vivenciada. Sendo assim, fica evidente que o problema ético no Brasil tem origens culturais e históricas e, por isso, merece ser superado.
A priori, cabe destacar que a cultura possui forte influência na ética nacional. À vista disso, na obra “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda afirma que o brasileiro utiliza de apropriação afetiva para conseguir o que quer. Nesse cenário, a afetividade se entranha até mesmo na linguagem, quando há, por exemlo, o uso de expressões como “tio” ou “irmão” direcionadas a estranhos, com interesses velados por trás. De acordo com o antropólogo, então, essa cordialidade é uma artimanha comportamental e psicológica que está embutida na formação identitária do país. Por conseguinte, em 1982, forma-se a concepção chamada de “o jeitinho brasileiro”, caracterizada pela maneira improvisada que a nação possui de resolver problemas sem que, para isso, a moral seja praticada. Portanto, é notório que a ética nacional sofre consequências culturais e, dessa maneira, urge por mudanças.
Outrossim, a História também pode ser empregada para entender o cenário contemporâneo. A título ilustrativo, em 1627 ao publicar a primeira obra brasileira, frei Vicente escreveu: “nenhum homem nesta terra é repúblico”. Nesse contexto, fica exemplificado o patrimonialismo, termo cunhado pelo sociólogo alemão Max Webex, cujo caráter estatal indifere o limite entre o público e o privado. Por esse motivo, a corrupção no Brasil pode ser analisada como endêmica, ou seja, que afeta todos os indivíduos cotidianamente a ponto de provocar aceitação social frente a atitudes antiéticas.
Nessa conjuntura, fica claro que a problemática da ética nacional precisa ser solucionada. Destarte, faz-se imprescindível que a esfera midiática atue por meio de campanhas educativas, em parceria com universidades e escolas, a respeito da corrupção endêmica que assola o país, por meio de instrumentos comunicativos como televisão, internet, rádio, revistas e outros, abrindo espaço para rodas de conversa que convidem o cidadão a refletir sobre as atitudes antiéticas cometidas no dia a dia, a fim de influenciar opiniões e desmistificar a noção patrimonialista no Brasil. Somente assim, o indivíduo brasileiro poderá caminhar para um futuro mais justo e ético.