ENEM 2009 - Qual o efeito em nós do "Eles são todos corruptos?"

Enviada em 31/08/2021

Policarpo, protagonista de Lima Barreto, do clássico livro “O triste fim de Policarpo Quaresma”, sempre teve como característica mais marcante um nacionalismo ufanista, acreditando em um Brasil utópico. Entretanto, a corrupção impregnada na sociedade torna o país ainda mais distante do imaginado pelo sonhador personagem. Com efeito, é imprescindível enunciar o aspecto sociocultural e um silenciamento midiático como pilares fundamentais da chaga.

Em primeira análise, torna-se evidente a influência do fator sociocultural. Sob tal perspectiva, é oportuno assinalar que, conforme o pensador Émile Durkheim, a sociedade deve ser analisada de maneira crítica e distanciada do senso comum. Nesse sentido, a proposta do sociólogo pode ser aplicada quando se analisa o fato de diversos brasileiros julgarem diretamente os políticos por serem corruptos, mas não notarem que no cotidiano, esses se aproveitam de brechas, como o de furar filas, entrar no cinema com meia entrada, mesmo sem estar nos requisitos e sentar em assentos preferenciais. Consequentemente, parte dos brasileiros não percebe que a raiz do problema está primeiramente na sociedade como um todo. Destarte, discorrer criticamente essa problemática é o primeiro passo para a consolidação de um país equânime.

Outrossim, a omissão da mídia quanto ao aspecto cultural ser refletido na sociedade como um todo ainda é um grande impasse para a resolução da problemática. O filósofo Foucault defende que, na sociedade pós-moderna, alguns temas são silenciados para que as estruturas de poder sejam mantidas. Por essa ótica, pode-se observar que a mídia, em vez de promover matérias que elevem o nível de informação da população sobre o efeito da corrupção social, de como os políticos refletem a sociedade, influencia na consolidação do problema, cuja base é o silenciamento midiático de uma situação a qual está tão presente na sociedade e que precisa cessar.

Entende-se, portanto, a corrupção como sendo um obstáculo intrínseco de raízes culturais e legislativas. Logo, a mídia, por intermédio de programas televisivos de grande audiência, irá discutir o assunto com sociólogos especialistas nessa área, com o objetivo de mostrar as reais consequências da corrupção do indivíduo em microaspectos sendo reverberados na sociedade, apresentar a visão crítica e orientar os espectadores a respeito do impasse. Essa medida ocorrerá por meio da elaboração de um projeto estatal, em parceria com o Ministério das Comunicações. Em adição, abrir rodas de comunicação nas escolas para que aprendam desde cedo como agir de modo ético em todos âmbitos sociais. Desse modo, a sociedade se aproximará do Brasil sonhado por Policarpo.