ENEM 2010 - O Trabalho na Construção da Dignidade Humana
Enviada em 26/11/2020
“Quem disse que dinheiro não resolve seus problemas/ provavelmente não tinha dinheiro suficiente para resolvê-los/ (…) meu sorriso é radiante/ minha pele é brilhante/ (…) você gosta do meu cabelo? Valeu, acabei de comprar/ eu vejo, eu gosto, eu quero, eu compro” esses trechos são da música “7 Rings” da cantora estadunidense Ariana Grande e que apresenta uma recorrente visão de mundo da atualidade, a qual foca o “ter” em detrimento do “ser”. Nesse sentido, o valor intrínseco do ser humano, sua dignidade, passa a ser medido muito mais pela remuneração que a pessoa recebe, do que pela forma que se utilizou para consegui-la, deturpando a visão de trabalho nos dias atuais.
Em primeiro lugar, a desvalorização do trabalho já ocorria desde a Roma e Grécia Antiga, que diferenciavam trabalho mental e braçal, este último reservado para escravos. Certamente a estratificação da sociedade, apesar de ajudá-la a se desenvolver mais rápido, pela especialização do trabalho, também corre o risco de levar a uma alienação quanto a importância dos diferentes tipos de serviços, assim como das influências que o ato de exercê-los causa na construção do ser humano e da civilização. Com base nisso, Karl Marx definiu o trabalho como: “o elemento definidor do ser, por ser o responsável por gerar suas condições de existência”. Embora essas discussões do século XIX influenciaram muitos documentos como a própria Constituição brasileira, a visão ultrapassada de superioridade de um trabalho sobre o outro, a desvalorização do trabalhador e valorização da simples remuneração independente de ter sido conquistada por mérito permanecem atualmente.
Contudo, com a globalização novas formas de trabalho surgiram, que procuram atender às demandas atuais de novas ideias e tecnologia, maior qualidade de vida e preocupação com o meio ambiente. Assim, o trabalho, que adquiriu papel de protagonista na vida contemporânea, está cada vez mais próximo de possibilitar a todos a realização pessoal e virar ferramenta para alcançar sua definição de ser, como sugeria Karl Marx. Porém, para países extensos e diversificados como o Brasil, a difusão da evolução da relação com o trabalho ainda é um desafio que depende do Estado para ser superado.
Portanto, é imprescindível que o Estado tome providências, ao criar, através do Ministério da Educação junto a escolas públicas e privadas, programas educacionais que ensinem a valorização do trabalho e os seus efeitos sobre o ser e a sociedade, por meio de palestras e eventos interescolares, estimulando a participação da família dos alunos, tanto como telespectadores, quanto como voluntários para falar de suas profissões. Dessa forma, músicas como as da Ariana Grande poderão se tornar somente um retrato de um passado morto, através de um presente formado por cidadãos não mais focados apenas no lucro e imagem que certo trabalho os dá.