ENEM 2011 – “Viver em Rede no Século XXI”

Enviada em 31/08/2020

A Teoria da Seleção Natural, de Charles Darwin, relaciona as características de um ser vivo com o habitat dele, de modo que, caso ele não possua certos atributos, o animal pode, frente às forças seletivas do meio, ser extinto. Assim, devido à imersão nas redes sociais ser uma questão de sobrevivência, os limites entre a vida pública e privada tendem a se tornar inexistentes. Isso porque o indivíduo, ao ser forçado pelo meio a viver em rede, inevitavelmente, tem assuntos pessoais, do trabalho e da vida social, mesclados e uma grande quantidade informações expostas ao público.

Em primeiro lugar, antes, informações pessoais, como endereço de residência e local de trabalho, eram acessados apenas por seus respectivos donos. Todavia, esses dados são adquiridos, de forma fácil, ao analisar o perfil de alguém nas redes sociais. Nesse sentido, vale citar uma pesquisa da University of Evansville, a qual aponta a possibilidade das empresas aferirem aspectos, como equilíbrio emocional, de seus funcionários por meio de uma análise das postagens deles no meio virtual. Porém, apesar disso, o problema está na facilidade em realizar a análise citada, mesmo sem o aval dos empregados, o que pode implicar em uma desnecessária fusão entre a área laboral e social, além de ameaçar a liberdade de expressão dos trabalhadores, garantida pela Constituição de 1988.

Em segundo lugar, a falta de privacidade cria paradigmas na sociedade, dentre eles, a ideia de que, para existir, é necessário se expor ao público, análogo a frase célebre do filósofo René Descartes, “Penso, logo, existo”, nas redes sociais que, juntos, aparentemente inofensivos, expõem ainda mais a vida das pessoas ao público. Assim,  a felicidade humana passa a ser projetada no outro, aquele que vai curtir as postagens, compartilhá-las, criando, por sua vez, no internauta, a falsa ilusão de popularidade. Junto a isso, conforme o filósofo Arthur Schopenhauer, o estado de felicidade depende apenas do sujeito, então, projetá-la no outro é um erro, pois uma não curtida e, ou, um não compartilhamento, são pequenas frustrações, mas que, consoante o médico Drauzio Varella, podem, somadas a outros fatores, acarretar no aparecimento de doenças, Síndrome do Pensamento Acelerado e a Síndrome do Circuito Fechado da Memória, por exemplo.

Enfim, vê-se que o cenário esmiuçado urge por mudanças. Desse modo, o Ministério da Educação deve criar uma matéria destinada ao uso adequado da internet, a fim de gerar um debate sobre como viver em rede, alertando aos alunos a necessidade de expor, de forma consciente, no âmbito virtual. Para tal fim, profissionais da área de saúde serão convocados para ajudar os estudantes a combater as efemeridades psicológicas vinculadas ao mundo digital. Com efeito, minimizando as forças  seletivas do meio, o homem poderá sobreviver por mais alguns milênios.