ENEM 2014 - 1ª aplicação - Publicidade infantil em questão no Brasil.

Enviada em 23/05/2021

A propaganda é uma arma poderosa. Isso é inegável: graças a ela, regimes totalitários e inclusive hostis, como o nazismo, ascenderam com a aceitação de boa parcela da população. No entanto, se até mentes maduras puderam ser afetadas por esse artifício, crianças estão ainda mais expostas a tamanho perigo. Sendo assim, entidades como o Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente estão certas ao criticar a publicidade infantil, tendo em vista o despreparo desse público a essa exposição e seus efeitos danosos no âmbito social.

Nesse sentido, convém refutar o mito de que a criança é uma miniatura de adulto e que, por isso, anúncios destinados a elas seriam aceitáveis. De acordo com Noam Chomsky, opositor do behaviorismo, a memória é muito superior ao raciocínio durante a infância, o que se inverte com o amadurecimento. Embora esse argumento seja usado no campo do ensino de idiomas, também é aplicável ao problema da publicidade infantil: a criança, com fraco discernimento, absorve o que lhe é exposto sem pensar – ainda mais se o comercial vier acompanhado de seu personagem preferido. Assim, em consonância com a ideia da tábula rasa, de John Locke, é preciso ter cuidado com o que está sendo cravado na mentalidade das futuras gerações.

Ademais, inúmeras questões sociais têm raízes na infância, sendo a propaganda um fator agravante. A respeito disso, vale citar a teoria da “sociedade panóptica”, de Foucault, segundo a qual os indivíduos estão constantemente vigiando as ações alheias e segregando aqueles que não correspondam às normas. No universo infantil, percebe-se a influência de comerciais na criação de padrões a serem seguidos; seus produtos são elementos de distinção social – como é percebido no anúncio de tesouras que diz “Eu tenho, você não tem” –, e aqueles que não os possuem são alvos de exclusão. Dessa forma, embora pareçam uma competição inocente, tais ações são alicerce para preconceitos e o consumo em busca de aceitação.

Diante da magnitude de suas consequências, é, portanto, merecedora de maior atenção a questão da publicidade infantil no Brasil. Para erradicar essa prática antiética, é preciso que organizações não-governamentais, associadas à mídia, informem a população a respeito de seus efeitos danosos, fazendo sua rejeição se tornar um consenso. Além disso, escolas e creches devem propor a confecção de brinquedos como atividade lúdica por meio do uso de materiais reciclados, desvinculando o valor do objeto de seu prestígio e, assim, atenuando as sequelas deixadas por comerciais. Enfim, espera-se que, com a concretização dessas propostas, os pequenos cidadãos tenham sua vulnerabilidade respeitada.