ENEM 2014 - 1ª aplicação - Publicidade infantil em questão no Brasil.

Enviada em 04/08/2021

Em um clássico experimento de psicologia social, o cientista Bandura exibiu vídeos violentos a crianças que, em seguida, apresentaram comportamentos agressivos direcionados a um boneco joão-bobo. Dessa forma, demonstrou-se a suscetibilidade infantil a sugestões implícitas de comportamento presentes em itens audiovisuais, fato que pode ser estendido ao caso da publicidade direcionada a crianças, a qual estimula o consumismo ao público infantil. Diante disso, destaca-se a manipulação relacionada às propagandas e a alienação coletiva como aspectos nefastos associados à divulgação de produtos a crianças no Brasil.

De início, vale ressaltar que o apelo ao consumo por meio de imagens e falas dirigidas a crianças consiste em um caso de manipulação, haja vista que se busca persuadir a população infantil a adotar comportamentos de maneira irracional e irrefletida. Nesse sentido, os filósofos frankfurtianos Adorno e Horkheimer destacam a tendência contemporânea em se incentivar a falta de autonomia nas tomadas de decisões, de modo que membros da elite controlam o conteúdo a ser transmitido pelas mídias, com o intuito de motivar condutas que atendam a seus interesses financeiros. Assim, detentores dos meios de comunicação utilizam-se de propagandas para definir aquilo que será desejado pelas crianças, enquanto o raciocínio crítico, habilidade essencial para o julgamento das necessidades, não é estimulado nesses indivíduos, para que esses permaneçam reféns de motivações externas.

Ademais, a falta de questionamento dos brasileiros acerca de tal realidade contribui para a manutenção do impacto negativo de propagandas infantis à sociedade. Nesse contexto, a intelectual alemã Hannah Arendt argumenta, em sua obra “Eichmann em Jerusalém”, que a banalidade do mal é provocada pela falta de reflexão diante de uma circunstância que afeta determinado grupo de pessoas. Logo, por considerar que propagandas persuasivas às crianças são normais, a população não se revolta contra o abuso envolvido na popularidade desses instrumentos de controle comportamental, postura que sustenta a permanência do cenário vigente.

Portanto, é necessário enfrentar a manipulação infantil provocada por propagandas no Brasil. Para isso, cabe ao Ministério da Educação, agente fundamental na formação socioeducacional dos cidadãos, a inclusão na matriz curricular escolar de uma matéria que procure estimular o pensamento crítico de alunos do ensino básico, ação que deve ser efetuada mediante a colaboração de psicólogos especializados no desenvolvimento infantil, os quais deverão promover atividades e debates com o intuito de desenvolver o autoconhecimento e a liberdade no processo de identificação das reais vontades. Com isso, será possível atenuar os efeitos de anúncios persuasivos às crianças.