ENEM 2015 - A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
Enviada em 01/12/2020
No universo distópico de “O Conto da Aia” a linguagem tem papel essencial de criar um vocabulário oficial que serve à elite patriarcal. Ela priva as mulheres de seus nomes pessoais: Offred, por exemplo, é “Of” mais “Fred”, que significa “de Fred”, nome de seu Comandante. Nesse sentido, embora essa realidade distante seja inimaginável no sistema sociopolítico atual, o cenário brasileiro ainda é comandado pelas elites patriarcais que persistem, por meio da violência, controlar o corpo e a mente femininas. Portanto, faz-se necessário uma análise dessa conjuntura, com intuito de mitigar tais práticas que corroboram essa lógica opressora.
Em primeiro lugar, vale ressaltar a origem patriarcal com base na religiosidade que é usada como arquitetura para a sociedade tradicional contemporânea, no qual, sistematicamente, o homem ocupa a posição de maior prestigio social. De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, a sociedade possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos pelos indivíduos. Nessa perspectiva, o tecido social brasileiro perpetua os arquétipos das violências simbólicas, semelhante a teocracia de “O Conto da Aia”. Sendo assim, torna-se evidente que essas práticas são incorporadas no inconsciente coletivo e reproduzidas, condicionando coercitivamente a liberdade individual delas a atingirem o prestígio social.
Por conseguinte, observa-se um forte poder de influência dessas violências simbólicas por parte do comportamento machista, visto que uma vez institucionalizado, qualquer voz que difere do discurso padrão acaba sendo tachado e marginalizado. Com efeito, segundo a teoria da Banalidade do mal de Hannah Arendt, a maldade sob o véu da banalidade do dia-a-dia, disfarça, ainda que sutilmente, o totalitarismo e a misoginia. Dessa maneira, esse cenário nefasto contribui para perpetuar a violência contra a mulher, e por isso, deve ser veementemente combatido.
Depreende-se, portanto, a necessidade de combater a persistência da violência contra a mulher no quadro atual brasileiro. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação - instituição do Estado responsável pela formação inteligível do indivíduo- inserir, nas escolas, palestras e oficinas, para desenvolver a capacidade estética e expressiva de se colocar no lugar do outro de maneira lúdica, articulada a reflexão da psicologia sócio-histórica, criado empatia e uma visão holística da diversidade e suas representatividades femininas na história da humanidade. Por fim, dessa maneira será possível oxigenar novas estruturas no imaginário coletivo capaz de fazer mudanças significativas na lógica opressora patriarcal e, ademais, afastar do capital cultural a crença religiosa que marginaliza a mulher, como no romance teocrático.