ENEM 2015 - A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira

Enviada em 18/02/2021

Em sua obra “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago ressalta a importância de ter olhos quando todos os perderam. Sob essa ótica, nota-se uma espécie de cegueira social, intrincada na sociedade brasileira, a qual impede os indivíduos de enxergarem problemas, como a violência contra a mulher. Diante disso, a forte cultura patriarcal do país, aliada ao medo de denunciar contribui para a persistência dessa grave patologia social. Desse modo, são prementes debates acerca das consequências dos diversos tipos de agressões contra as mulheres no Brasil.

Nesse contexto, vale citar a série “Coisa mais linda”, a qual aborda o machismo na sociedade brasileira, ao retratar as agressões sofridas por uma mulher pelo seu marido. Fora da ficção, a forte cultura patriarcal do Brasil, que “coisifica” e “objetifica” o sexo feminino, colabora para o aumento do número de mulheres violentadas. Nesse viés, a mulher é vista, por vezes, como inferior pelos homens, os quais se acham no direito de atacá-las, não só fisicamente, mas, também, psicologicamente, com ofensas e agressões verbais. Além disso, o medo de denunciar o agressor, por ser alguém da família, ou por acreditar que as atitudes dele mudarão, contribui para intensificar esses ataques, conforme pesquisas do Ibope Inteligência. Assim, é inegável o efeito propulsor do machismo enraizado na sociedade e da omissão das vítimas, para a permanência da violência contra mulheres no Brasil.

Nessa perspectiva, de acordo com o filósofo Locke, em sua teoria da “Tábula Rasa”, o ser humano é um papel em branco a ser preenchido por experiências ao longo da vida. Analogamente, muitas mulheres brasileiras podem ser “preenchidas” por experiências traumáticas advindas das investidas masculinas. Sob esse prisma, segundo o médico Drauzio Varella, as vítimas podem apresentar transtornos psíquicos, como ansiedade, depressão e síndrome do pânico, além de ficarem com sequelas permanentes, em virtude das agressões físicas. Ademais, intimidadas pelos agressores, as mulheres tendem a diminuir a sua autoestima, devido ao receio de expressar suas vontades, sua sexualidade e sua individualidade. Posto isso, são indiscutíveis os devastadores impactos físicos, psíquicos e sexuais dos ataques masculinos ao sexo oposto.

Infere-se, portanto que a cultura patriarcal e o medo de denunciar contribuem para a persistência da violência contra mulheres. Logo, é basilar que o Ministério Mulher, da Família e dos Direitos Humanos promova seminários, por meio de palestras on-line em plataformas digitais, com orientações sobre formas de prevenção às agressões masculinas e informações sobre locais de denúncia, com o fito de diminuir o número de vítimas e de incentivar mais mulheres a não se omitirem em caso de ataques. Destarte, a população brasileira poderá ser curada da “cegueira social” metaforizada por Saramago.