ENEM 2015 - A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira

Enviada em 19/03/2021

Em sua obra “Ensaio sobre a Cegueira”, o autor português José Saramago disserta sobre a falta de sensibilidade a realidades alheias, a qual resulta em prejuízos àqueles que possuem suas necessidades ignoradas. Nesse sentido, pode-se afirmar que essa análise se aplica ao contexto contemporâneo, em que as mulheres são vítimas frequentes de violência, sem que atitudes confrontadoras sejam adotadas, o que sustenta a problemática. Dessa forma, a sociedade atua como cúmplice dos crimes sofridos pela população feminina, evidenciando-se a alienação coletiva e a falta de instrução escolar como contribuintes para essa problemática.

De início, é essencial destacar que a normalização de pensamentos inadequados, como que existiriam roupas impróprias para as mulheres ou que seria natural sexualizar a figura feminina em situações banais, favorece a manutenção da violência, sobretudo sexual, contra mulheres. Nesse âmbito, a filósofa Hannah Arendt desenvolveu o conceito de “banalidade do mal”, referindo-se à trivialização de circunstâncias cruéis devido à carência de reflexão. Logo, por não questionar a maldade envolvida em noções que legitimam o assédio contra mulheres, a coletividade aceita o cenário atual.

Ademais, a escassez de atitudes eficazes que busquem reverter o supramencionado alheamento reforça o fato de que se tolera a agressão que acomete a população feminina. Conforme defende o educador Paulo Freire, a educação seria o meio pelo qual atos transformadores seriam viabilizados, por intermédio do estímulo ao raciocínio crítico. Contudo, o sucateamento o ensino público no país, acrescido à permanência de ideais conservadores na mente coletiva, demonstram que o combate eficiente à violência enfrentada por mulheres demanda, primordialmente, uma reestruturação educacional.

Verifica-se, portanto, que a reincidência de casos de agressão contra mulheres tem como base fatores estruturais, destacando-se a banalização de ideias que reforçam a hostilidade às mulheres, e a falha na formação socioeducacional, que poderia reconstruir tais convicções. Destarte, para enfrentar a cegueira social diante das mulheres, cabe ao Ministério da Educação, agente fundamental para a instrução educacional da população, promover palestras nas escolas em em praças públicas, por meio da participação de psicólogos especializados no assunto da violência sofrida por mulheres que informem de maneira eficaz a população sobre o problema. Com isso, espera-se enfrentar a insegurança e falta de bem-estar a que estão sujeitas as mulheres no cenário hodierno.