ENEM 2015 - A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
Enviada em 27/08/2021
Na série norte-americana “Você”, o gerente de uma livraria, Joe, conhece uma garota e se apaixona automaticamente. Entretanto, quando pequeno, testemunhava seu pai agredir fisicamente a mãe em casa, de modo que a história de amor à primeira vista se transformou em um grande pesadelo: a violência que presenciava em casa foi reproduzida na parceira. Tal narrativa pode ser plenamente aplicada à realidade do Brasil, visto que a violência contra a mulher brasileira configura um cenário persistente. Nesse sentido, tanto o machismo estrutural, com seu legado, quanto a indevida impunidade dos agressores favorecem a criação de um cenário anômalo e explicitam a necessidade de reverter a problemática em questão.
Primordialmente, o machismo estrutural arquiteta um legado de um ciclo de violência aparentemente infindável, mas que, muitas vezes, é invisibilizado. Meio a um incessante contato com a reprodução de condutas que favorecem o homem em detrimento da mulher, como a diferença salarial ou objetificação feminina nos veículos de comunicação, pequenas crianças, sistematicamente, reconhecem tais atitudes como exemplos desde cedo, reprisando-as e normalizando-as. Nesse contexto, o emprego da Atitude Blasé, termo proposto pelo sociólogo Georg Simmel, se torna explícito, visto que a sociedade passa a agir com indiferença e passa a banalizar situações nas quais deveria dedicar a atenção.
Outrossim, a insuficiência do sistema jurídico brasileiro contribui para a impunidade à muitas ocorrências de violência contra a mulher, assim como para o incentivo à manutenção dessas práticas, constituindo um ambiente patológico em escala nacional. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, entre 2006 e 2011, de todos os casos dessa natureza violenta, menos de 35% foram julgados. Consequentemente, saindo ilesos, muitos dos acusados optam pela perpetuação de práticas violentas com as companheiras, desenvolvendo um cenário de anomia social, segundo o sociólogo Émile Durkheim, o qual em crise rompe com a harmonia da sociedade, inviabilizando o progresso coletivo. Desse modo, visando uma educação que denuncia práticas machistas, cabe aos responsáveis das crianças e às instituições de ensino - entidades importantes na socialização primária dos jovens - abordar tal problemática de maneira didática e responsável por meio de rodas de conversa. Já a fim de aprimorar a punibilidade dos agressores, cabe à sociedade civil junto à OAB, Ordem dos Advogados do Brasil, cobrar do Judiciário uma atuação mais assertiva e prudente quanto a punição nos casos de violência contra a figura feminina. Logo, a aplicação de tais condutas auxiliará no combate ao ciclo de violência explorado por Joe com sua parceira.