ENEM 2016 - 1ª Aplicação - Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil

Enviada em 13/10/2020

Em 2015, a sede do jornal satírico francês “Charlie Hebdo” sofreu um atentado terrorista após uma polêmica envolvendo charges relacionadas ao islamismo, que foram interpretadas como um insulto aos muçulmanos. Não obstante esse episódio representar uma tentativa de restrição à liberdade de expressão da mídia, é indubitável que ele traz à tona o dilema da intolerância religiosa, a qual é responsável pela opressão a indivíduos que não se adequam às religiões predominantes no Brasil. Sob essa ótica, é primordial analisar os efeitos da estigmatização de grupos minoritários e da ausência de alteridade no agravamento dessa situação problemática.

É imperioso salientar, a princípio, que fatores como o desconhecimento acerca da multiplicidade étnica e religiosa corroboram a difusão do sentimento de inferioridade aos grupos com diferentes crenças - tais como o Islã e o Candomblé -, o que fere diretamente a dignidade destes. Tal fenômeno pode ser relacionado ao conceito de “Estigma Social”, o qual foi proposto pelo sociólogo Erving Goffman e evidencia que os indivíduos alijados da normatividade imposta pela sociedade são associados a uma imagem negativa. Nesse sentido, denota-se que esse processo de estimatização não só perpetua a marginalização desses grupos, mas também dificulta a efetivação de sua cidadania, uma vez que a liberdade de culto às diversas religiões é assegurada pela Constituição Federal de 1988.

Ademais, infere-se que a tolerância religiosa está diretamente atrelada à prática da alteridade, a qual é caracterizada pelo reconhecimento da diferença entre pessoas, culturas e crenças, bem como pelo respeito a esta. Entretanto, segundo o conceito de “Modernidade Líquida”, do sociólogo Zygmunt Bauman, as relações interpessoais são voláteis e marcadas pelo individualismo. Por conseguinte, a ausência do coletivismo entre os indivíduos, reiteradamente, impossibilita a manifestação da alteridade, o que fomenta a manutenção da herança intolerante deixada pelos colonizadores portugueses no que tange à imposição da fé cristã aos indígenas e impede a plena manifestação das diversas religiões existentes no Brasil.

Depreende-se, portanto, que a associação das diversas crenças a uma imagem negativa e o individualismo estão atrelados à intolerância religiosa. Posto isso, com vistas a subverter esse paradigma opressor, urge que o Ministério da Educação crie, por meio de subsídios governamentais, campanhas que serão expostas nas redes sociais. Essa medida deverá orientar os internautas acerca da multiplicidade étnica e religiosa existente no país, bem como os efeitos da estigmatização de grupos minoritários na marginalização destes. Somente assim, criar-se-á um cenário mais favorável à manifestação das diversas religiões, extinguindo atitudes como as tomadas pelo jornal “Charlie Hebdo”.