ENEM 2016 - 1ª Aplicação - Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil

Enviada em 07/01/2021

Na obra “O povo brasileiro”, Darcy Ribeiro caracteriza a formação da civilização brasileira pela miscigenação da cultura, valorizando o papel do pluralismo cultural na malha social. No entanto, durante o imperialismo europeu, essa miscigenação em forma de violências simbólicas classificaria os índios e negros como sem alma, justificando, assim, a intolerância religiosa e a marginalização da cultura não branca. Portanto, faz-se necessária uma análise dessa conjuntura, com intuito de mitigar tais práticas que corroboram essa lógica pós-colonialista que interfere na diversidade de crenças no Brasil.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que o Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravidão, em 13 de maio de 1888, resultado de uma movimentação político-econômica que ignora as contribuições culturais e religiosas dos ex-escravos. De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, a sociedade possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos pelos indivíduos. Nesse sentido, o conjunto de ideias cristalizadas e absorvidas pela colonização torna-se demasiadamente negativa para a liberdade de crença. Sendo assim, evidencia-se que o combate a intolerância religiosa deve ser um projeto de ressignificação da lógica e dos valores adquiridos no processo histórico brasileiro.

Por conseguinte, a construção da identidade da recém república brasileira, imposta pelas necessidades capitalistas do século XIX, infere conflitos na pós-modernidade. Nessa perspectiva, a hegemonia do processo pós-colonial produz narrativas que afastam das minorias à liberdade de culto religioso e massifica a segregação social. Sob essa ótica, segundo a teoria do filósofo Stuart Hall, o sujeito pós-moderno é dotado de múltiplas identidades atravessadas, nas quais muitas vezes entram em conflitos. Dessa forma, Hall busca reconhecer as diferenças entre os movimentos sociais em consonância com as identidades, bem como a representatividade do credo religioso nas instituições do Estado democrático, para assim ser possível arquitetar uma sociedade mais justa e multiculturalista.

Depreende-se, portanto, a necessidade de combater a intolerância religiosa no cenário atual brasileiro. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação -Instituição do Estado responsável pela formação inteligível do indivíduo- inserir, nas escolas, palestras e oficinas, para desenvolver a capacidade estética e expressiva de se colocar no lugar do outro de maneira lúdica, articulada a reflexão da psicologia sócio-histórica, exprimindo a importância da diversidade e suas representatividades religiosas no laço social e na dinâmica democrática. Por fim, dessa maneira será possível oxigenar novas estruturas no imaginário coletivo capaz de fomentar mudanças significativas na lógica imperialista europeia e, ademais, valorizar as demais vozes que constituem a identidade nacional como Darcy Ribeiro descreve em seu livro.