ENEM 2016 - 1ª Aplicação - Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil

Enviada em 19/11/2021

Em 1983, a banda irlandesa “U2” lançou a música “Sunday Bloody Sunday”, que expressava indignações acerca do Domingo Sangrento ocorrido na Irlanda do Norte em 1972. Naquele início de semana, manifestantes católicos foram brutalmente assassinados por soldados ingleses, que tentavam conter os protestos contra o governo britânico. Nesse conflito, a intolerância religiosa esteve intimamente associada ao nacionalismo exacerbado, de forma análoga, no Brasil, a falta de respeito às crenças alheias está fundamentada no racismo histórico na sociedade. Dessa forma, a intolerância religiosa se mescla a outros escolpos que merecem ser discutidos.

Primeiramente, de acordo com dados da Secretaria de Direitos Humanos, os adeptos de religiões afro-brasileiras são a maioria dos que sofrem discriminação por motivo religioso no Brasil. Esse fato demonstra que as religiões de matriz africana são os principais alvos de ostilidades no país, já que, pelos longos anos de escravidão negra, a cultura dessas etnias fora subjulgada. Em virtude do racismo, essas religiões, por séculos, foram marginalizadas junto a seus membros e, por consequência, hoje, mesmo após a abolição da escravidão, permanece a visão errônea de que elas cultuam o mal e devem ser combatidas por isso. Nesse sentido, é necessário corrigir e punir também o preconceito racial para garantir a liberdade religiosa.

Além disso, o sincretismo religioso também exemplifica o caráter racista da intolerância religiosa no Brasil. Ao longo da história, em um meio cristão e escravocrata, os praticantes de crenças de matriz africana tiveram que fundir sua fé a elementos católicos - religião dominante na época - a fim de preservar sua cultura. Um exemplo dessa absorção e readequação é a “equivalência” entre orixás e santos do cânon romano, como “Nossa Senhora Aparecida” e “Oxum”. Assim, para não serem castigados e para manterem em pé sua consciência cultural, os escravos tiveram que maquiar suas divindades em figuras sacras católicas, como forma de resistência aos poderes opressores vigentes.

Com base no exposto, conclui-se que, no Brasil, a intolerância religiosa está estritamente entrelaçada ao racismo, que também deve ser levado em consideração na busca por caminhos para combater esse mal. Portanto, com a finalidade de mitigar o preconceito e a violência contra religiões de matriz africana, a esfera pública, com suas secretarias da educação e cultura, devem incentivar, nas escolas, o combate ao racismo e o valor da tolerância. Isso pode ser feito com a inclusão de ensino religioso nas grades de sociologia e filosofia e, também, com a ampliação de aulas de história, com foco na presença do racismo desde a época colonial até atualmente. Somente após a mudança de paradigma da sociedade através da educação que o Brasil será livre de intolerância religiosa.